Reforço interno com fibras de polietileno (Ribbond) em dentes fraturados e fragilizados pós-tratamento endodôntico: uma série de casos

Citação do estudo-base: Kênia Soares de Toubes et al. Management of Cracked and Weakened Endodontically Treated Teeth Using Fiber‑reinforced Composites: A Case Series. Iranian Endodontic Journal, 2025, 20(1): e13. DOI: 10.22037/iej.v20i1.46536 — PMID: 40206776 — PMCID: PMC11980996


Resumo

Dentes que passaram por tratamento endodôntico e apresentam trincas coronárias ou fragilidade estrutural constituem um desafio clínico frequente na odontologia. A série de casos de Toubes e colaboradores (2025) descreve a aplicação de compósitos reforçados com fibras de polietileno de alta resistência (Ribbond) em três pacientes, com acompanhamento de dois anos. O protocolo incluiu remoção de restaurações antigas, reconstrução do núcleo com resina composta, tratamento ou retratamento endodôntico e reforço interno do acesso com fibras de polietileno. Os três casos evoluíram com remissão completa dos sinais e sintomas, sugerindo que o reforço interno com fibras é uma alternativa conservadora, eficaz e duradoura para o manejo de dentes fragilizados por grandes obturações e tratamento endodôntico.


1. Introdução

Um dos dilemas mais frequentes na prática clínica restauradora é a abordagem do dente que, após sucessivas intervenções — obturações extensas, tratamento endodôntico e, por vezes, instalação de pinos intrarradiculares —, apresenta paredes dentárias remanescentes finas, frágeis e, em muitos casos, já com trincas visíveis. Essas estruturas, quando submetidas às cargas mastigatórias cotidianas, têm elevado risco de fratura catastrófica, frequentemente levando à perda do elemento dental.

O estudo em análise, publicado no Iranian Endodontic Journal em janeiro de 2025, aborda justamente esse cenário. Seus autores — Kênia Soares de Toubes, Fabiana Dantas Meirelles, Gilberto Antônio Borges, Amauri José Lima Mendes, Mauricio Gustavo Oliveira e Frank Ferreira Silveira —, vinculados à Universidade de Uberaba, à Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e à Universidade de Itaúna, propuseram um protocolo restaurador minimamente invasivo baseado no uso de compósitos reforçados com fibras de polietileno (Ribbond) para dentes tratados endodonticamente que apresentam trincas, raízes alargadas ou paredes radiculares fragilizadas.

O diferencial do estudo reside no fato de que, embora exista extensa pesquisa laboratorial sobre compósitos reforçados com fibras, as evidências clínicas sobre sua durabilidade e eficácia em dentes humanos ainda são escassas. Este artigo apresenta, portanto, uma contribuição relevante ao traduzir conceitos de engenharia de materiais para a prática clínica diária.


2. Por que dentes tratados endodonticamente se tornam frágeis?

Antes de compreender a solução proposta, é necessário entender a origem do problema. Um equívoco comum é atribuir exclusivamente ao tratamento endodôntico a fragilidade do dente. Os autores, respaldados pela literatura clássica, apontam que o preparo do canal radicular reduz a rigidez do dente em apenas cerca de 5%. O verdadeiro fator de risco está na perda de estruturas coronárias.

A ausência de uma crista marginal pode resultar em 46% de perda de rigidez dentária; já uma cavidade mesio-ocluso-distal (MOD) extensa implica uma redução média de 63% na rigidez relativa das cúspides. Em outras palavras, o dente tratado endodonticamente não é frágil por si só — ele se torna frágil porque, ao longo de sucessivos tratamentos restauradores, perdeu esmalte, dentina e os reforços estruturais naturais que distribuem as forças mastigatórias.

A isso se somam fatores como remoção de tecido por cáries recorrentes, preparo para pinos metálicos pré-fabricados e a própria confecção de acessos endodônticos. O resultado é um dente com paredes finas, suscetível a trincas e fraturas.


3. A proposta do estudo: reforço interno com fibras de polietileno

O protocolo descrito por Toubes et al. (2025) seguiu rigorosamente as diretrizes CARE (Case Report guidelines) e foi aplicado em três pacientes, com consentimento livre e esclarecido. O fluxo de atendimento é composto por quatro etapas principais:

3.1 Remoção de restaurações antigas

O primeiro passo consistiu na remoção criteriosa das restaurações antigas, expondo as áreas de trinca e fragilidade. Os autores enfatizam a necessidade de identificação precisa das linhas de fratura, frequentemente auxiliada por microscópio operatório, transiluminação ou corantes específicos — procedimentos que, embora não detalhados exaustivamente no estudo, são considerados essenciais para o sucesso do tratamento.

3.2 Reconstrução do núcleo com resina composta

Após a remoção das restaurações insatisfatórias, procedeu-se à reconstrução do núcleo coronário com resina composta. Essa etapa visa restaurar o volume e a anatomia básica do dente, criando uma base adequada para as fases seguintes.

3.3 Tratamento ou retratamento endodôntico

Nos casos em que havia comprometimento pulpar ou necessidade de revisão do tratamento endodôntico prévio, realizou-se a terapia endodôntica (ou retratamento). Apenas após a conclusão satisfatória dessa fase é que se partiu para o reforço interno.

3.4 Reforço do acesso endodôntico com fita de polietileno (Ribbond)

A etapa central do protocolo consistiu na aplicação da fita de polietileno de alta resistência (Ribbond) no interior do acesso endodôntico. A fita, previamente umedecida com resina adesiva não preenchida, foi inserida e adaptada contra as paredes do canal e da câmara pulpar, criando uma estrutura de contenção que une as paredes fragilizadas.

O princípio é semelhante ao de uma armadura em uma construção civil: a fibra de polietileno distribui as tensões mastigatórias por uma área muito maior do que uma restauração convencional, além de impedir a propagação das trincas já existentes. A técnica estabelece três mecanismos de ação principais:

  1. Melhora da retenção mecânica, pela adaptação íntima da fibra às irregularidades da câmara pulpar e dos canais.
  2. Inibição da propagação de trincas, pela ação de contenção que a fibra exerce sobre as paredes fragilizadas.
  3. Formação de ligação química entre a fibra e a resina composta, garantindo um conjunto monobloco estável e durável.

Além disso, os autores destacam que a técnica dispensa o desgaste adicional para colocação de pinos intrarradiculares metálicos ou de fibra de vidro, preservando a estrutura dentária remanescente e reduzindo o risco de fratura radicular.


4. Acompanhamento e resultados clínicos

Após a conclusão das restaurações, os pacientes foram acompanhados por um período de dois anos. Os critérios de avaliação incluíram remissão de sinais e sintomas (dor à mastigação, sensibilidade à percussão, desconforto espontâneo), integridade radiográfica e ausência de sinais de progressão das trincas.

Os resultados foram extremamente favoráveis: os três casos evoluíram com remissão completa dos sinais e sintomas, e os pacientes permanecem em monitoramento contínuo.

Um aspecto particularmente relevante do estudo é a menção ao uso de Biodentine como barreira intra-orifício em alguns dos casos. Esse material à base de silicato de cálcio, com propriedades bioativas e capacidade de selamento, foi empregado para promover o selamento interno da trinca, prevenindo microinfiltração e possível propagação apical da fratura.


5. Discussão: vantagens e limitações do protocolo

Quando comparado às abordagens tradicionais — pinos metálicos fundidos ou pré-fabricados associados a núcleos e coroas totais —, o protocolo com fibras de polietileno oferece uma série de vantagens:

  • Preservação da estrutura dental: não há necessidade de alargamento adicional dos canais, mantendo a espessura das paredes radiculares.
  • Redução do risco de fratura radicular: a fibra, por seu baixo módulo de elasticidade (similar ao da dentina), dissipa as forças sem criar concentrações de tensão.
  • Procedimento mais conservador e rápido: realizado em consultório, sem necessidade de laboratório de prótese.
  • Potencial para maior longevidade: ao prevenir a propagação das trincas, a técnica pode retardar ou evitar a evolução para fratura catastrófica.

Entretanto, os próprios autores reconhecem limitações. Trata-se de uma série de casos com número reduzido de pacientes (n = 3) e período de acompanhamento de apenas dois anos. Estudos longitudinais com maior casuística e prazos mais longos são necessários para consolidar a evidência clínica. Além disso, a técnica exige domínio dos princípios de adesão e conhecimento específico sobre o manuseio das fibras de polietileno, o que pode representar uma barreira de aprendizado para alguns profissionais.

Um estudo complementar, publicado em 2025 por Jakab et al. na revista Dental Materials, investigou a formação de trincas em cavidades MOD profundas restauradas com diferentes técnicas de fibras. Os resultados indicaram que os compósitos reforçados com fibras curtas (SFRC) inseridos em bloco foram capazes de moderar o fenômeno de aparecimento de trincas ao longo de cinco semanas de armazenamento em água, corroborando a ideia de que o reforço fibroso tem efeito protetor real sobre a integridade do esmalte e da dentina.


6. Considerações clínicas para o cirurgião-dentista

Com base na série de casos de Toubes et al. (2025) e na literatura correlata, podem-se extrair algumas orientações práticas para o manejo do dente fraturado e fragilizado pós-tratamento endodôntico:

  1. Diagnóstico preciso: utilize transiluminação, microscópio operatório e, se necessário, tomografia computadorizada de feixe cônico para identificar a extensão e direção das trincas.
  2. Avalie a extensão da perda estrutural: dentes com trincas restritas à porção coronária e com pelo menos duas paredes íntegras são os melhores candidatos à técnica.
  3. Reforce internamente: a colocação da fita de polietileno no interior do acesso endodôntico deve ser precedida de adequado condicionamento ácido e aplicação do sistema adesivo.
  4. Siga o protocolo de umedecimento da fibra: utilize resina não preenchida para molhar completamente o Ribbond antes da inserção, garantindo sua impregnação adequada.
  5. Realize proteção coronária imediata: após o reforço interno, recomenda-se uma restauração definitiva que proteja o conjunto — seja uma restauração direta em resina composta, uma inlay/onlay ou uma coroa total, dependendo do caso.
  6. Monitore a longo prazo: trincas são estruturas dinâmicas; mesmo após o tratamento bem-sucedido, o acompanhamento periódico é essencial.

7. Considerações finais

A série de casos de Toubes e colaboradores (2025) representa um importante avanço no manejo conservador dos dentes tratados endodonticamente que apresentam trincas e fragilidade estrutural. Ao empregar compósitos reforçados com fibras de polietileno (Ribbond) como reforço interno, os autores demonstraram que é possível recuperar a função e a estabilidade desses elementos sem recorrer a abordagens invasivas e potencialmente danosas, como os pinos intrarradiculares metálicos.

A remissão completa dos sinais e sintomas nos três casos, com dois anos de acompanhamento, reforça o potencial da técnica como uma alternativa viável e duradoura. Embora sejam necessários mais estudos clínicos com amostras maiores e prazos mais extensos, o protocolo apresentado já se configura como uma ferramenta valiosa no arsenal do cirurgião-dentista contemporâneo, alinhada aos princípios da odontologia biomimética e minimamente invasiva.


Referências (formato reduzido, baseadas no artigo original)

  1. de Toubes KMS, Meirelles FD, Borges GA, Mendes AJL, Oliveira MG, Silveira FF. Management of Cracked and Weakened Endodontically Treated Teeth Using Fiber‑reinforced Composites: A Case Series. Iran Endod J. 2025;20(1):e13. DOI: 10.22037/iej.v20i1.46536. PMID: 40206776. PMCID: PMC11980996.
  2. Reeh ES, Messer HH, Douglas WH. Reduction in tooth stiffness as a result of endodontic and restorative procedures. J Endod. 1989;15(11):512–6.
  3. de Toubes KMS, Soares CJ, Soares RV, et al. The Correlation of Crack Lines and Definitive Restorations with the Survival and Success Rates of Cracked Teeth: A Long‑term Retrospective Clinical Study. J Endod. 2022;48(2):190–9.
  4. Jakab AG, et al. Crack propensity of different fiber‑reinforced direct restorative procedures in deep MOD cavities. Dent Mater. 2025;41(8):1034–44.
  5. Florêncio RBL, Anjos RS. Avaliação do potencial do Ribbond na restauração das paredes dentárias pós‑tratamento endodôntico: uma revisão integrativa. BJIHS. 2024;6(11):664–76.
  6. Silva JC, Taveira OB, Soares PG. Uso de Ribbond® em molares com trincas — revisão de literatura. DCS. 2026;23(88).
  7. Ferreira JS, et al. Ribbond® como aliado na reabilitação de dentes severamente destruídos: eficiência e aplicações clínicas. BJIHS. 2025;7(9):579–88.
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