Fonte e abrangência: Este artigo é baseado no estudo Optimization of Results for Cracked Teeth Using CAD‑CAM System: A Case Series, de Kênia Maria Soares de Toubes e colaboradores, publicado no Iranian Endodontic Journal em 2020 (Volume 15, Número 1, páginas 57-63; PMID: 36704316). O trabalho avaliou o uso de restaurações cerâmicas confeccionadas por tecnologia CAD‑CAM (desenho e fabricação assistidos por computador) em dentes posteriores com síndrome do dente trincado. Com acompanhamento de cinco anos, os autores relataram 100% de sobrevivência das restaurações, consolidando essa abordagem como uma alternativa previsível, rápida e minimamente invasiva. Este conteúdo foi organizado para apresentar os detalhes do protocolo, os materiais utilizados, as indicações e as vantagens clínicas do sistema CAD‑CAM no manejo de dentes trincados.
1. Introdução
A síndrome do dente trincado (cracked tooth syndrome — CTS) representa um dos desafios diagnósticos e terapêuticos mais frequentes na clínica de dentística restauradora e endodontia. Caracterizada por trincas incompletas que se estendem da superfície oclusal em direção à dentina e, em alguns casos, à raiz, a CTS pode evoluir com dor à mastigação, sensibilidade térmica e, se não tratada adequadamente, fratura catastrófica do elemento dental.
Tradicionalmente, as opções restauradoras para dentes trincados incluíam restaurações diretas em resina composta (com ou sem cobertura cuspídea) e restaurações indiretas metálicas ou cerâmicas confeccionadas por técnica convencional (moldagem, fundição, prensagem). No entanto, cada uma dessas abordagens apresenta limitações: as resinas diretas têm menor longevidade em dentes submetidos a altas cargas; as restaurações indiretas convencionais demandam múltiplas sessões e longos prazos de confecção em laboratório.
A introdução dos sistemas CAD‑CAM (Computer‑Aided Design/Computer‑Aided Manufacturing) na odontologia restauradora revolucionou o tratamento de dentes fragilizados. Com a possibilidade de escanear o preparo, desenhar a restauração virtualmente e fresá‑la em bloco cerâmico em poucos minutos, o clínico pode oferecer ao paciente uma restauração de alta precisão, excelente adaptação marginal e propriedades mecânicas superiores, muitas vezes em uma única consulta.
Publicada em 2020 no Iranian Endodontic Journal, a série de casos de Toubes e colaboradores é uma das primeiras a avaliar especificamente o uso do sistema CAD‑CAM (CEREC, Dentsply Sirona) para o tratamento de dentes com síndrome do dente trincado. Os resultados impressionantes — 100% de sobrevivência das restaurações em cinco anos — colocam essa tecnologia como uma ferramenta de primeira linha no manejo dessa condição.
Este artigo analisa detalhadamente o estudo de Toubes et al. (2020), descrevendo a metodologia, os achados e as implicações práticas para o cirurgião‑dentista que deseja incorporar o CAD‑CAM em seu fluxo clínico para dentes trincados.
2. Metodologia do Estudo
2.1 Desenho e seleção de casos
Trata-se de uma série de casos clínicos prospectiva (não randomizada), conduzida na Clínica de Pós‑Graduação em Endodontia da Universidade de Uberaba (Brasil). Foram selecionados pacientes com diagnóstico clínico e radiográfico de síndrome do dente trincado em dentes posteriores (pré‑molares e molares), que atendiam aos seguintes critérios de inclusão:
- Dor à mastigação (especialmente à descompressão) e/ou sensibilidade ao frio, com duração inferior a 6 meses.
- Ausência de cárie extensa ou restauração insatisfatória que justificasse o quadro.
- Trinca identificada por transiluminação e/ou microscopia operatória, limitada à porção coronária (sem extensão radicular confirmada por tomografia).
- Dente vital ou com comprometimento pulpar reversível (testes de vitalidade positivos).
- Pelo menos duas paredes dentárias íntegras remanescentes.
Foram excluídos dentes com trinca radicular vertical, mobilidade patológica, bolsa periodontal associada à trinca, ou necessidade de tratamento endodôntico prévio.
Ao final, a amostra incluiu 12 dentes (7 molares e 5 pré‑molares) de 12 pacientes (idades entre 28 e 62 anos). Todos os procedimentos foram realizados pelo mesmo operador experiente em CAD‑CAM.
2.2 Protocolo clínico
O fluxo de atendimento seguiu rigorosamente as etapas abaixo:
- Anestesia e isolamento absoluto com dique de borracha.
- Preparo cavitário conservador: remoção de restaurações antigas e tecido cariado, mas com máximo respeito à estrutura dental hígida. As trincas foram estabilizadas removendo‑se apenas as pontas de esmalte soltas.
- Proteção pulpar direta/indireta, quando indicada (aplicação de hidróxido de cálcio ou cimento biocerâmico).
- Escaneamento óptico intraoral: utilizando o sistema CEREC (Dentsply Sirona) com câmera intraoral de alta resolução. Foram obtidas imagens do preparo e do dente antagonista, além do registro da oclusão.
- Desenho virtual da restauração (CAD): utilizando o software CEREC SW 4.5. O desenho foi realizado como onlay (cobertura de uma ou mais cúspides) ou overlay (cobertura total da superfície oclusal e todas as cúspides), dependendo da extensão da trinca e da perda estrutural.
- Fresagem (CAM): blocos de dissilicato de lítio (IPS e.max CAD, Ivoclar Vivadent) foram fresados em aproximadamente 10-15 minutos.
- Cimentação adesiva: após prova da adaptação e ajustes mínimos, a superfície interna da cerâmica foi condicionada com ácido fluorídrico 10% (20 segundos), silanizada e cimentada com cimento resinoso dual (Variolink II, Ivoclar Vivadent) sob isolamento absoluto.
- Ajuste oclusal e polimento final.
2.3 Acompanhamento e critérios de sucesso
Os pacientes foram reavaliados clinicamente e radiograficamente em 1, 3, 6, 12, 24, 36, 48 e 60 meses. Os critérios de sucesso incluíram:
- Ausência de dor ou sensibilidade à mastigação, percussão e testes térmicos.
- Integridade marginal da restauração (sem trincas, lascas ou infiltração).
- Ausência de cárie recorrente.
- Radiografia periapical sem lesão ou alteração periodontal.
- Satisfação do paciente com a estética e função.
A principal medida de desfecho foi a taxa de sobrevivência da restauração (restauração ainda em função sem necessidade de substituição).
3. Resultados
Os resultados publicados por Toubes et al. (2020) são notáveis e servem como forte evidência a favor do uso de CAD‑CAM para dentes trincados:
- Taxa de sobrevivência em 5 anos: 100% . Nenhum dos 12 dentes tratados perdeu a restauração ou necessitou de retratamento por fratura, infiltração ou dor persistente.
- Desfecho clínico: todos os pacientes relataram remissão completa dos sintomas pré‑operatórios (dor à mastigação e sensibilidade ao frio) já na primeira semana após a cimentação, e mantiveram‑se assintomáticos durante todo o acompanhamento.
- Integridade radiográfica: não foram observadas lesões periapicais, reabsorções radiculares ou perda óssea periodontal nos 60 meses de follow‑up.
- Satisfação estética: os pacientes avaliaram as restaurações com nota média 9,5 (em escala de 0 a 10) quanto à cor, forma e translucidez.
Os autores atribuíram esses resultados excelentes a três fatores principais:
- A precisão marginal proporcionada pelo CAD‑CAM (adaptação média < 50 μm), que sela a trinca contra infiltração bacteriana.
- A resistência mecânica do dissilicato de lítio (módulo de elasticidade ~95 GPa), que atua como uma “armadura” distribuindo as cargas uniformemente.
- O protocolo adesivo rigoroso, que une a restauração ao remanescente dentário de forma monobloco.
4. Discussão
4.1 Vantagens do CAD‑CAM no manejo de dentes trincados
Quando comparado às alternativas tradicionais (resina composta direta, onlays laboratoriais, coroas totais), o sistema CAD‑CAM oferece vantagens específicas para dentes com trinca:
a) Rapidez e previsibilidade
Em contraste com a técnica indireta convencional (moldagem com silicone, vazamento em gesso, enceramento, fundição ou prensagem, que demandam de 7 a 14 dias e duas ou três consultas), o CAD‑CAM entrega a restauração final em uma única sessão (média de 90 minutos). Isso reduz o risco de contaminação do preparo e de progressão da trinca durante o período provisório.
b) Adaptação marginal superior
Estudos laboratoriais mostram que restaurações CAD‑CAM em dissilicato de lítio apresentam fenda marginal média de 30‑60 μm, enquanto restaurações manuais (resina composta ou cerâmica prensada) frequentemente excedem 100 μm. Em dentes trincados, uma adaptação marginal excelente é crucial para impedir a microinfiltração e a propagação da fenda.
c) Preservação estrutural
O CAD‑CAM permite o uso de onlays/overlays extremamente finos (1,0‑1,5 mm de espessura), que cobrem as cúspides sem exigir desgaste adicional da estrutura dentária sadia. Isso contrasta com as coroas totais, que removem 1,5‑2,0 mm de toda a circunferência do dente, enfraquecendo ainda mais o remanescente.
d) Material otimizado
O dissilicato de lítio (ex.: IPS e.max CAD) tem propriedades mecânicas ideais para o contexto: alta resistência flexural (360‑400 MPa), módulo de elasticidade próximo ao da dentina (evita concentração de tensões) e excelente adesão por cimentação resinos.
4.2 Comparação com o estudo de Banerji et al. (2010) e atualizações
Enquanto Banerji et al. (2010) discutiam as opções restauradoras para a síndrome do dente trincado sem mencionar o CAD‑CAM (tecnologia ainda emergente na época), o trabalho de Toubes et al. (2020) representa a consolidação clínica dessa tecnologia. Os resultados de 100% de sobrevivência em 5 anos superam as taxas reportadas para resinas compostas diretas (~85% em 5 anos) e são equivalentes ou melhores do que as de coroas totais convencionais (~94‑97% em 5 anos).
Uma metanálise de 2023 (não incluída no estudo original, mas citada em atualizações) reforçou que restaurações CAD‑CAM em dissilicato de lítio para dentes posteriores têm sobrevida de 97,8% em 5 anos e 92,5% em 10 anos, com causas de falha mais relacionadas à fratura da cerâmica do que à infiltração ou cárie. Isso valida os achados de Toubes.
4.3 Limitações do estudo
Apesar dos resultados promissores, o estudo de Toubes et al. (2020) apresenta limitações importantes:
- Amostra pequena: apenas 12 dentes, o que limita a generalização estatística.
- Ausência de grupo controle: não houve comparação direta com resina direta ou onlay laboratorial.
- Operador único e centro único: os resultados podem refletir a habilidade específica do operador e as condições do centro de referência.
- Critérios de inclusão restritivos: foram excluídos dentes com trinca radicular ou necessidade de tratamento endodôntico, exatamente os casos de maior desafio. O sucesso de 100% pode não se reproduzir em amostras mais heterogêneas.
Estudos multicêntricos randomizados com maior casuística são necessários para confirmar os achados. No entanto, a série de casos de Toubes contribui com evidência de nível 4 (série de casos) que, quando consistente com a literatura laboratorial e clínica subsequente, apoia o uso clínico.
5. Considerações clínicas para implementação do CAD‑CAM
Com base no estudo de Toubes et al. (2020) e na experiência clínica acumulada, pode‑se oferecer as seguintes orientações práticas:
5.1 Indicações preferenciais
- Dente posterior (pré‑molar ou molar) com trinca limitada à coroa, confirmada por transiluminação ou microscopia.
- Dente vital ou com comprometimento pulpar reversível.
- Pelo menos duas paredes dentárias hígidas remanescentes.
- Paciente com boas condições de higiene e sem hábitos parafuncionais severos (ou com placa miorrelaxante).
5.2 Contraindicações relativas
- Trinca radicular vertical (extensão radicular confirmada).
- Perda óssea periodontal associada à trinca.
- Necessidade de tratamento endodôntico prévio (nestes casos, deve‑se associar o CAD‑CAM a uma barreira intrarradicular e, possivelmente, a uma coroa total).
- Bruxismo severo não controlado (risco de fratura da cerâmica).
5.3 Passos para o sucesso
- Diagnóstico preciso: invista em transiluminação, microscópio e, se necessário, CBCT.
- Preparo conservador: preserve a dentina pericervical. O preparo para onlay CAD‑CAM deve ter ângulos arredondados e espessura mínima de 1,5 mm para cerâmica.
- Escaneamento de qualidade: use pó anti‑reflexo (se necessário) e capture também a oclusão dinâmica.
- Desenho da restauração: priorize o overlay (cobertura total de cúspides) para dentes com trinca moderada a extensa.
- Cimentação adesiva rigorosa: isolamento absoluto, condicionamento da cerâmica com ácido fluorídrico, silanização e cimento resinoso dual de baixa solubilidade.
- Acompanhamento programado: consultas anuais para avaliar adaptação marginal, integridade estrutural e sintomas.
6. Conclusão
A série de casos de Toubes e colaboradores (2020) demonstra que os sistemas CAD‑CAM, utilizando restaurações em dissilicato de lítio, são uma opção altamente eficaz e previsível para o tratamento de dentes posteriores com síndrome do dente trincado. A taxa de sobrevivência de 100% em cinco anos, aliada à remissão completa dos sintomas e à alta satisfação estética dos pacientes, coloca essa tecnologia como padrão de referência para casos selecionados.
Para o clínico que já dispõe de um sistema CAD‑CAM (como CEREC, Primeprint, Trios ou similar), o estudo oferece a segurança de que investir nessa abordagem — desde que respeitados os critérios de indicação — resulta em benefícios clínicos duradouros. Para aqueles que ainda não adotaram a tecnologia, os resultados encorajam a capacitação e o investimento, alinhando‑se à tendência da odontologia digital minimamente invasiva.
Em suma, para o dente trincado sem comprometimento radicular, a restauração CAD‑CAM em dissilicato de lítio, com cobertura total das cúspides, não é apenas uma alternativa — é, com base nas evidências atuais, a melhor opção disponível em termos de longevidade, previsibilidade e conservação estrutural.
Referências
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