Fonte e abrangência: Este artigo é baseado na segunda parte da série sobre Cracked tooth syndrome, publicada no British Dental Journal por Banerji, Mehta e Millar (2010). O texto original oferece um relato abrangente dos méritos e desvantagens de vários materiais restauradores, além de suas respectivas técnicas de aplicação para o tratamento de dentes posteriores sintomáticos com fraturas incompletas. Este conteúdo está organizado para apresentar as opções imediatas, intermediárias e definitivas disponíveis para o clínico.
1. Introdução
Após o estabelecimento do diagnóstico da síndrome do dente trincado (SDT), abordado na primeira parte da série, o profissional depara‑se com o desafio de decidir qual a melhor conduta restauradora. A segunda parte do trabalho de Banerji e colaboradores, publicada no British Dental Journal em 2010, concentra‑se exatamente nesse ponto: apresentar os métodos disponíveis para o manejo imediato, intermediário e definitivo de pacientes acometidos por essa condição.
O artigo é estruturado para guiar o clínico desde o atendimento de urgência até a reabilitação definitiva, discutindo tanto restaurações diretas (resinas compostas) quanto indiretas (inlays, onlays, coroas), além de introduzir um conceito inovador para a época: a tala coronária direta (direct coronal splint).
Neste artigo, traduzimos e comentamos os principais pontos dessa referência clássica, integrando‑os a atualizações relevantes da literatura odontológica, para oferecer um guia prático e baseado em evidências ao cirurgião‑dentista.
2. Classificação e tomada de decisão restauradora
A escolha da melhor opção restauradora depende fundamentalmente da extensão e da profundidade da trinca. Banerji et al. (2010) enfatizam que não existe uma “receita única”, mas sim um espectro de possibilidades que vão desde condutas mais conservadoras até a cobertura total do elemento dental.
A decisão clínica deve considerar:
- Sintomatologia: dor à mastigação (especialmente à descompressão), sensibilidade ao frio, possíveis sinais de comprometamento pulpar.
- Extensão da trinca: limitada ao esmalte, atingindo dentina, ou com envolvimento pulpar.
- Condição dentária pré‑existente: presença de restaurações extensas, tratamento endodôntico prévio, perda de estrutura coronária.
- Hábitos parafuncionais: bruxismo, apertamento noturno, que aumentam significativamente o risco de progressão da trinca.
Os autores dividem o manejo em três fases temporais: imediata (controle da dor e estabilização), intermediária (restaurações provisórias) e definitiva (reabilitação de longa duração). A seguir, detalhamos cada uma dessas fases.
3. Manejo imediato: alívio dos sintomas e estabilização
Pacientes com síndrome do dente trincado frequentemente procuram o consultório em crise, com dor aguda à mastigação e sensibilidade que interfere na alimentação. O primeiro objetivo, portanto, é aliviar os sintomas e evitar a progressão da trinca.
3.1 Ajuste oclusal seletivo
Banerji et al. (2010) mencionam que o ajuste oclusal das inclinações que geram contato direto sobre a cúspide fraturada pode reduzir significativamente a sintomatologia. Essa abordagem, porém, deve ser cautelosa e limitada, pois o desgaste excessivo pode levar à perda de referências oclusais e não trata a causa estrutural.
Estudos posteriores (Geurtsen, 2003; Griffin, 2006) corroboram que o ajuste oclusal isolado raramente é suficiente e deve ser seguido por uma restauração de proteção cuspídea.
3.2 “Tala coronária direta” (Direct Coronal Splint)
Um dos conceitos de maior destaque no artigo de Banerji et al. (2010) é a tala coronária direta — uma restauração imediata em resina composta que envolve todas as cúspides do dente afetado, criando um “anel” de contenção que une os segmentos separados pela fenda.
Essa técnica pode ser executada na mesma consulta, não requer laboratório protético e tem três objetivos principais:
- Redistribuir as forças mastigatórias por toda a superfície oclusal, evitando a concentração sobre a trinca.
- Impedir a movimentação independente das cúspides, que é a causa da dor à descompressão.
- Avaliar, em caráter provisório, se o dente tem potencial para ser mantido, antes de se investir em uma restauração indireta de alto custo.
A tala coronária direta é particularmente indicada quando há dúvida sobre a necessidade de tratamento endodôntico ou quando se pretende “testar” o dente por algumas semanas antes de uma restauração definitiva.
4. Opções restauradoras definitivas
Uma vez que o dente está estável e assintomático (ou após conclusão de eventual tratamento endodôntico), parte‑se para a reabilitação definitiva. Banerji et al. (2010) dividem as opções em duas grandes categorias: restaurações diretas e restaurações indiretas.
4.1 Restaurações diretas com resina composta
4.1.1 Indicações e limitações
As resinas compostas diretas são uma opção atraente por seu baixo custo, rapidez e caráter minimamente invasivo. No entanto, para a síndrome do dente trincado, seu uso só é recomendado quando:
- A trinca é restrita ao esmalte ou dentina superficial.
- Não há comprometimento pulpar.
- O dente apresenta pelo menos duas paredes dentárias íntegras.
- O paciente não tem hábitos parafuncionais severos.
Banerji et al. (2010) alertam que restaurações diretas que não envolvem todas as cúspides têm alta taxa de falha, pois a fenda permanece exposta e pode se propagar. O ideal é que a restauração direta seja confeccionada como um overlay em resina — ou seja, cobrindo completamente a superfície oclusal e as cúspides remanescentes.
4.1.2 Técnica e evidências
A técnica segue os princípios adesivos contemporâneos: condicionamento ácido seletivo do esmalte, aplicação de sistema adesivo de última geração, e incrementos de resina composta de alta resistência (preferencialmente nanohíbridas ou com carga de partículas submicrométricas).
Uma revisão sistemática de 2024, citada por trabalhos subsequentes, mostrou que dentes com trincas restritas à coroa, tratados com resinas compostas diretas em técnica de cobertura cuspídea, apresentam sobrevida de 85,4% em cinco anos. Esse percentual é inferior ao das restaurações indiretas, mas ainda assim aceitável para dentes de baixo risco.
4.2 Restaurações indiretas
Sempre que possível, Banerji et al. (2010) e a literatura mais recente recomendam o uso de restaurações indiretas para o manejo definitivo da síndrome do dente trincado. As opções incluem inlays, onlays, overlays e coroas totais.
4.2.1 Inlays
O inlay é uma restauração indireta que se limita à cavidade intra‑cuspídea, sem cobrir as pontas das cúspides. Para a SDT, seu uso é restrito a trincas muito superficiais e quando há ampla estrutura dental remanescente. A desvantagem é que o inlay não oferece proteção contra a flexão cuspídea, podendo até mesmo concentrar tensões nas paredes dentárias.
4.2.2 Onlays e overlays
Tanto o onlay (cobre uma ou mais cúspides) quanto o overlay (cobre todas as cúspides) são opções amplamente superiores para dentes com trincas. Eles atuam como uma “armadura” que envolve a porção coronária, distribuem as forças de maneira uniforme e selam a fenda.
Os materiais mais utilizados são:
- Cerâmica reforçada por dissilicato de lítio (ex.: IPS e.max): excelente estética, boa resistência, alta adesão.
- Cerâmica vítrea reforçada por zircônia (ex.: Vita Suprinity): módulo de elasticidade intermediário, alto desempenho clínico.
- Compostos indiretos (ex.: Brilliant Crios, Lava Ultimate): mais fáceis de ajustar, reparar e com menor desgaste do antagonista.
Banerji et al. (2010) já apontavam que restaurações indiretas com cobertura cuspídea, confeccionadas por sistemas CAD‑CAM, elevam a resistência à fratura do dente fragilizado a níveis próximos aos de um dente hígido.
4.2.3 Coroas totais
A coroa total é a opção mais tradicional e, em muitos casos, a mais segura, especialmente quando:
- A trinca atinge a dentina média ou profunda.
- O dente foi tratado endodonticamente.
- O paciente tem bruxismo severo.
- Há perda de mais de 50% da estrutura coronária.
Os autores alertam, porém, que a coroa total exige desgaste significativo da estrutura remanescente, o que, paradoxalmente, pode enfraquecer ainda mais o dente se não for planejado adequadamente. Sempre que possível, deve‑se optar por onlays ou overlays como alternativa conservadora.
Um estudo retrospectivo de Signore et al. (2020), mencionado por trabalhos subsequentes, mostrou resultados muito promissores para onlays indiretos adesivos de resina, com sobrevida de 92,2% em 10 anos.
5. Abordagem para dentes com trinca e envolvimento pulpar
Quando a trinca atinge a polpa dentária, o quadro clínico evolui para pulpite irreversível, necrose ou abscesso periapical. Nesses casos, o tratamento de canal é inevitável, e a sequência restauradora deve ser rigorosa:
- Conclusão do tratamento endodôntico com selamento coronário imediato (evitar a contaminação salivar).
- Avaliação da extensão da trinca – se a fenda for visível na raiz, o prognóstico é reservado.
- Restauração definitiva obrigatoriamente com cobertura total (onlay ou coroa), pois o dente tratado endodonticamente e trincado está sob altíssimo risco de fratura catastrófica.
Banerji et al. (2010) reforçam que não se deve “apenas” restaurar a cavidade de acesso com resina; a câmara pulpar e os canais radiculares fragilizados precisam de reforço. Uma técnica complementar descrita por Toubes et al. (2025) — embora posterior ao trabalho de Banerji — consiste na colocação de fibras de polietileno (Ribbond) dentro da câmara pulpar como contenção adicional.
6. Comparação entre materiais e longevidade
A tabela a seguir resume as principais opções discutidas por Banerji et al. (2010) e atualizadas pela literatura recente:
| Opção restauradora | Indicação primária | Taxa de sobrevida em 5-10 anos | Principais vantagens | Principais desvantagens |
|---|---|---|---|---|
| Resina direta (overlay) | Trincas superficiais, baixo risco | ~85% em 5 anos | Baixo custo, conservadora, uma consulta | Suscetível a fadiga, fratura, descoloração |
| Onlay cerâmico | Trincas moderadas, dente vital | 92-95% em 5 anos | Estética, alta resistência, adesivo | Custo elevado, duas consultas |
| Onlay de resina indireta | Alternativa à cerâmica | 92% em 10 anos | Reparável, menor desgaste antagonista | Menor resistência à fratura que cerâmica |
| Coroa total | Perda extensa, dente tratado | 94-97% em 5 anos | Máxima proteção | Desgaste agressivo, irreversível |
Os dados mostram que, embora as resinas diretas sejam uma opção válida para situações de baixa complexidade, as restaurações indiretas com cobertura cuspídea oferecem maior previsibilidade e longevidade.
7. Considerações práticas para o clínico
Com base no artigo de Banerji e colaboradores (2010) e na literatura subsequente, é possível extrair um fluxo de manejo prático:
- Diagnóstico confirmado (anterior à restauração) → utilize transiluminação, teste de mordida e, se necessário, tomografia.
- Estabilização imediata → em crise, realize ajuste oclusal seletivo e/ou tala coronária direta em resina.
- Avalie a extensão → trinca superficial? Resina direta com cobertura. Trinca profunda ou dente endodonticamente tratado? Encaminhe para onlay/overlay ou coroa.
- Considere os hábitos parafuncionais → paciente com bruxismo? Reforço protético com cobertura total e placa miorrelaxante noturna.
- Acompanhamento → consultas periódicas para avaliar sinais de progressão da trinca (dor, mobilidade cuspídea, infiltração).
Os autores enfatizam que o maior erro no manejo da síndrome do dente trincado é subestimar a necessidade de cobertura cuspídea. Restaurações que não envolvem as cúspides deixam a fenda exposta e selam o destino do dente — a fratura catastrófica.
8. Conclusão
A segunda parte da série de Banerji, Mehta e Millar (2010) sobre a síndrome do dente trincado permanece atual como um guia prático e baseado em evidências para o clínico. Seus principais ensinamentos podem ser resumidos em três pontos:
- O manejo deve ser escalonado: imediato (controle da dor), intermediário (tala coronária direta) e definitivo (restauração com cobertura cuspídea).
- Nunca se deve restaurar um dente trincado sem envolver todas as cúspides — a exceção são trincas ultra‑superficiais em pacientes de baixo risco.
- Restaurações indiretas (onlays, overlays, coroas) oferecem maior previsibilidade e longevidade do que resinas diretas, especialmente em dentes com perda estrutural significativa ou tratados endodonticamente.
O conceito inovador da “tala coronária direta” introduzido pelos autores continua sendo uma ferramenta valiosa para o arsenal clínico, permitindo uma abordagem reversível, de baixo custo e altamente eficaz para a estabilização inicial desses casos.
Ao integrar os princípios de Banerji et al. (2010) com os avanços em materiais adesivos e técnicas CAD‑CAM, o cirurgião‑dentista contemporâneo dispõe de todas as ferramentas para tratar e, sobretudo, prevenir a progressão dessa condição tão desafiadora — garantindo ao paciente um tratamento conservador, duradouro e com alta taxa de sucesso.
Referências
- Banerji S, Mehta SB, Millar BJ. Cracked tooth syndrome. Part 2: restorative options for the management of cracked tooth syndrome. Br Dent J. 2010;208(11):503‑14. DOI: 10.1038/sj.bdj.2010.496. PMID: 20543791.
- Banerji S, Mehta SB, Millar BJ. Cracked tooth syndrome. Part 1: aetiology and diagnosis. Br Dent J. 2010;208(10):459‑63. PMID: 20489766.
- Geurtsen W, Schwarze T, Günay H. Diagnosis, therapy, and prevention of the cracked tooth syndrome. Quintessence Int. 2003;34(6):409‑17. PMID: 12859085.
- Signore A, et al. Long‑term survival of indirect resin composite onlays for the treatment of cracked teeth: a retrospective study. J Adhes Dent. 2020;22(6):605‑612.
- Griffin J. Efficient, conservative treatment of symptomatic cracked teeth. Compendium. 2006;27:93‑102.
- de Toubes KMS, et al. Management of Cracked and Weakened Endodontically Treated Teeth Using Fiber‑reinforced Composites: A Case Series. Iran Endod J. 2025;20(1):e13.
- FDI World Dental Federation. Cracked tooth syndrome advice sheet. 2022.
- Osaki RB. Síndrome do Dente Gretado (Trincado): etiologia, diagnóstico e tratamento. Repositório USP. 2018.
- Fraquelli APM. Síndrome do dente gretado: opções restauradoras. Repositório PUCRS. 2025.