Fonte e abrangência:
Este artigo é baseado na análise da Diretriz Política da Federação Dentária Internacional (FDI), adotada em setembro de 2025, e complementado pelo Guia de Recomendações para o Uso de Fluoretos no Brasil (Ministério da Saúde, 2024), pela Diretriz para a Prática Clínica Odontológica na Atenção Primária à Saúde: Prevenção de Cárie na Primeira Infância (2024) e por revisões sistemáticas da literatura. O conteúdo foi organizado para oferecer ao cirurgião‑dentista uma visão abrangente e baseada em evidências sobre o papel central do flúor na prevenção da doença cárie, alinhada com a pergunta disparadora do artigo de referência: “Dá para escovar os dentes sem pasta?”
1. Introdução
Os dois artigos anteriores desta série demonstraram, com base em evidências de revisões sistemáticas, que a ação mecânica da escovação — com ou sem dentifrício — é o fator determinante para a remoção da placa bacteriana. O estudo de Valkenburg e colaboradores (2016) mostrou que escovar sem pasta remove, em média, 50,3% da placa, contra 49,2% com pasta — uma diferença não significativa. O artigo de Deinzer e colaboradores (2024) acrescentou que nenhuma técnica específica de escovação manual demonstrou clara superioridade sobre as demais. O corolário lógico dessas descobertas seria: se a pasta não ajuda na remoção mecânica da placa, seu uso seria dispensável?
A resposta a essa pergunta é não — e a razão está no flúor. Embora o dentifrício não contribua significativamente para a desagregação física do biofilme, ele é o principal veículo de entrega tópica de flúor, o agente com o mais alto nível de evidência para a prevenção da cárie dentária. Escovar os dentes sem pasta de dente fluoretada pode ser eficaz para a remoção da placa, mas abre mão da proteção anticárie que apenas o flúor tópico pode oferecer em escala populacional.
Este artigo analisa o papel do flúor na prevenção de cáries à luz das evidências mais recentes, incluindo a diretriz política da Federação Dentária Internacional (FDI) de 2025, as recomendações do Ministério da Saúde brasileiro (2024) e as principais revisões sistemáticas da literatura.
2. O flúor e seu mecanismo de ação anticárie
A cárie dentária é uma doença multifatorial, determinada pela interação entre um biofilme cariogênico (rico em bactérias acidogênicas) e carboidratos fermentáveis, especialmente os açúcares. O flúor atua em múltiplos níveis para prevenir e controlar esse processo:
- Inibição da desmineralização: o flúor adsorvido à superfície do esmalte reduz a solubilidade da hidroxiapatita, tornando o dente mais resistente aos ácidos produzidos pelas bactérias.
- Promoção da remineralização: na presença de flúor, a remineralização do esmalte é acelerada e produz cristais de fluorapatita, mais resistentes à dissolução ácida do que a hidroxiapatita original.
- Efeito antibacteriano: em concentrações elevadas, o flúor inibe enzimas bacterianas envolvidas no metabolismo de açúcares, reduzindo a produção de ácidos por bactérias cariogênicas.
O Guia de Recomendações para o Uso de Fluoretos no Brasil (Ministério da Saúde, 2024) detalha que o flúor ingerido via água ou dentifrício é absorvido pelo trato gastrointestinal, distribuído pelo plasma e incorporado aos tecidos mineralizados (ossos e dentes). A maior parte do fluoreto ingerido e não incorporado é excretada pela urina, e a absorção pela mucosa bucal é clinicamente desprezível.
A Federação Dentária Internacional (FDI), em sua diretriz política de 2025, reforça que “o fator‑chave para prevenir que lesões de cárie não cavitadas progridam para lesões cavitadas é manter um bom balanço entre a remineralização e a desmineralização dos tecidos duros dos dentes, de modo que não haja perda mineral líquida ao longo do tempo”. E o flúor é, até o momento, a substância mais eficaz conhecida para inclinar esse balanço a favor da remineralização.
3. Dentifrício fluoretado: concentração, frequência e técnica
A declaração política da FDI, adotada em Xangai em setembro de 2025, estabelece como recomendação central que “a higiene oral diária deve incluir a escovação dos dentes pelo menos duas vezes por dia com pasta dentífrica fluoretada, com uma concentração mínima de 1000 a 1100 ppm de flúor”. Este hábito deve começar com a erupção do primeiro dente e manter‑se ao longo de toda a vida.
A Diretriz do Ministério da Saúde para a Prevenção de Cárie na Primeira Infância (2024) recomenda “escovação com dentifrício fluoretado, na concentração de 1000 ppm até 1500 ppm de fluoreto” para crianças a partir da erupção do primeiro dente decíduo. A FDI acrescenta que “a melhor técnica e o melhor momento para escovar são pelo menos duas vezes ao dia, por um período mínimo de dois minutos, e, de preferência, sem enxaguar com água após cuspir a pasta”.
A recomendação de não enxaguar após a escovação é respaldada por evidências. Um estudo de 1999 com mais de 2.800 adolescentes do Reino Unido descobriu que aqueles que enxaguavam com um copo de água após a escovação tinham, em média, quase quatro dentes cariados, ausentes ou obturados, comparados a cerca de três para aqueles que não enxaguavam. “Quando você enxágua, basicamente está lavando os ingredientes ativos do creme dental que acabou de aplicar nos seus dentes”, explica Margherita Fontana, professora da University of Michigan School of Dentistry.
4. Aplicação profissional de flúor: quando e para quem
Além do dentifrício domiciliar, produtos fluoretados de alta concentração aplicados profissionalmente — vernizes, géis, espumas e elixires — têm papel complementar na prevenção da cárie, especialmente em indivíduos de risco elevado.
A FDI recomenda que “produtos fluoretados de maior concentração, como géis, elixires e vernizes, devem ser aplicados por um profissional de saúde oral de 1 a 4 vezes por ano, dependendo do risco de cárie do paciente”. Uma revisão sistemática de 2025 que reuniu dados de mais de 13.000 crianças que receberam verniz de flúor mostrou um risco consistentemente menor de cárie dentária em comparação com controles, com razões de risco fortemente favoráveis à intervenção. A revisão concluiu que o verniz de flúor é um método “seguro e bem‑sucedido” para prevenir cáries em crianças e adolescentes, inclusive quando entregue em ambientes educacionais.
A Diretriz brasileira (2024) incluiu como uma de suas cinco questões clínicas prioritárias: “Aplicação profissional de fluoretos é efetiva para prevenir ou controlar cárie na primeira infância?”. A resposta, baseada na evidência disponível, é afirmativa, com força de recomendação moderada a forte.
5. Dentifrícios de alta concentração (2500–5000 ppm) para pacientes de alto risco
Para indivíduos com risco elevado de cárie — portadores de xerostomia, pacientes em tratamento radioterápico, com múltiplas lesões ativas ou em uso de aparelhos ortodônticos fixos — a FDI recomenda que “pastas dentífricas de prescrição com concentração mais elevada (2500–5000 ppm) devem ser disponibilizadas e recomendadas para uso duas vezes ao dia”.
Esta recomendação está alinhada com outras diretrizes internacionais. A Tabela 3 do estudo de Mânica e colaboradores (2022) recomenda, para adultos de alto risco, “escovação duas vezes ao dia com pastas de flúor de alta concentração (1450 ppm ou mais)”. A orientação reflete o princípio da prevenção baseada no risco: quanto maior o desafio cariogênico do paciente, maior deve ser a intensidade da intervenção química.
6. Segurança: o equilíbrio entre benefício e risco
A segurança do flúor tópico, quando utilizado nas concentrações e doses recomendadas, é bem estabelecida. A FDI, em sua diretriz de 2025, cita uma revisão Cochrane que “encontrou associação insignificante entre a frequência da escovação ou a quantidade de pasta de dente fluoretada utilizada e a fluorose dentária em crianças pequenas”.
A fluorose dentária (manchas brancas nos dentes) está associada à ingestão excessiva de flúor durante o período de formação do esmalte — tipicamente nos primeiros seis anos de vida. Por essa razão, as recomendações de quantidade são importantes:
- Crianças menores de 3 anos: quantidade equivalente a um grão de arroz cru (≈0,1 g).
- Crianças de 3 a 6 anos: quantidade equivalente a uma ervilha (≈0,25 g).
- Supervisão obrigatória: as crianças devem ser supervisionadas durante a escovação para cuspir o excesso e não engolir a pasta.
Os especialistas em odontologia afirmam que a quantidade de flúor que permanece nos dentes após a escovação é segura, embora as crianças sempre devam ser supervisionadas ao escovar para garantir que cuspem o excesso. O risco de toxicidade aguda por flúor é extremamente baixo quando as pastas são utilizadas conforme as instruções, e o benefício comprovado na redução da cárie — a doença mais prevalente em saúde bucal global — supera em muito os riscos potenciais.
7. Considerações finais
A sequência lógica dos artigos anteriores — de que a escova faz o trabalho mecânico de remoção da placa, com ou sem pasta — não deve ser interpretada como uma justificativa para a abolição do dentifrício. Escovar sem pasta remove a placa, mas não protege contra a cárie.
As evidências aqui sintetizadas — desde a diretriz da FDI de 2025 até o guia do Ministério da Saúde de 2024 e as múltiplas revisões sistemáticas — sustentam uma posição clara:
- O dentifrício fluoretado (1000–1500 ppm) deve ser utilizado duas vezes ao dia para a prevenção da cárie, iniciando com a erupção do primeiro dente e continuando por toda a vida.
- A técnica ideal inclui escovação por dois minutos, sem enxágue com água após cuspir a pasta, para maximizar a retenção do flúor.
- Pacientes de alto risco de cárie se beneficiam de aplicações profissionais de flúor (vernizes, géis) de 1 a 4 vezes ao ano e, em casos selecionados, de pastas de prescrição com 2500–5000 ppm.
- A segurança do flúor tópico é excelente quando respeitadas as quantidades adequadas para cada faixa etária e a supervisão do uso por crianças.
O paradoxo aparente — “escovar sem pasta limpa igual, mas sem pasta não previne cárie” — reflete a complexidade da biologia bucal: a cárie não é causada apenas pela placa, mas pela atividade metabólica ácida dessa placa sobre os açúcares da dieta. O flúor atua exatamente nesse ponto, tornando o esmalte mais resistente e promovendo sua reparação. Portanto, recomendar a escovação sem dentifrício como regra — ainda que mecanicamente eficaz — seria negligenciar a intervenção química mais poderosa e custo‑efetiva disponível para o controle da cárie.
A prática clínica baseada em evidências integra, não separa, os dois pilares: escovação mecânica com escova de cerdas macias, técnica cuidadosa, mais dentifrício fluoretado, duas vezes ao dia, sem enxágue. Eis a prescrição mais simples, barata e eficaz para a saúde bucal de toda a população.
Referências
- FDI World Dental Federation. The Use of Topical Fluoride for Caries Prevention [Policy Statement]. Adopted by the General Assembly: Shanghai, China, September 2025. Disponível em: fdiworlddental.org.
- FDI World Dental Federation. Declaração da FDI reafirma importância do flúor tópico na prevenção da cárie dentária. Ordem dos Médicos Dentistas (OMD). Publicado em 19 de dezembro de 2025.
- Ministério da Saúde (Brasil). Guia de recomendações para o uso de fluoretos no Brasil. Brasília: Ministério da Saúde, 2024 (versão para consulta pública).
- Ministério da Saúde (Brasil). Diretriz para a prática clínica odontológica na Atenção Primária à Saúde: Prevenção de cárie na primeira infância. Brasília: Ministério da Saúde, 2024.
- Valkenburg C, Slot DE, Bakker EWP, van der Weijden FA. Does dentifrice use help to remove plaque? A systematic review. J Clin Periodontol. 2016;43(12):1050‑1058.
- Deinzer R, Weik U, Eidenhardt Z, Leufkens D, Sälzer S. Manual toothbrushing techniques for plaque removal and the prevention of gingivitis — A systematic review with network meta‑analysis. PLoS One. 2024;19(7):e0306302.
- Effectiveness of Various Fluoride Varnishes in Preventing Dental Caries in Children and Adolescents: A Systematic Review of Evidence From Educational Settings. Cureus. 2025;17(11):e96323.
- Marinho VC, Worthington HV, Walsh T, Chong LY. Fluoride gels for preventing dental caries in children and adolescents. Cochrane Database Syst Rev. 2015;2015(6):CD002280.
- Bever L. Dentistas avaliam não enxaguar a boca após escovar os dentes; entenda. The Washington Post (via Summit Saúde Estadão). 29 de abril de 2024.
- Mânica GF, et al. Caries risk assessment and prevention in adults. J Clin Exp Dent. 2022;14(10):e829‑e838.