Fonte e abrangência:
Este artigo é baseado na análise integrada de três estudos principais: (1) a revisão sistemática The Effectiveness of Power Versus Manual Toothbrushes on Plaque Removal and Gingival Health in Children—A Systematic Review and Meta-Analysis (Dağdeviren F, et al., Int J Dent Hygiene, 2025); (2) a revisão Systematic Review and Meta Analysis of the Relative Effect on Plaque Index among Pediatric Patients Using Powered (Electric) versus Manual Toothbrushes (Goyal S, et al., Dent J, 2023); e (3) o ensaio clínico randomizado Efficacy of manual, musical and electric toothbrushes in plaque removal in children—a randomized clinical trial (Bader AK, et al., J Clin Pediatr Dent, 2025). O conteúdo foi organizado para oferecer ao cirurgião‑dentista e ao clínico geral uma visão abrangente e baseada em evidências sobre o papel das escovas elétricas na higiene bucal de pacientes pediátricos e adolescentes.
1. Introdução
A escovação dentária constitui a base do controle mecânico da placa bacteriana, sendo fundamental para a prevenção de cáries e doenças periodontais desde a infância. No entanto, garantir uma escovação eficaz em crianças e adolescentes é um desafio clínico significativo. Pacientes pediátricos frequentemente apresentam destreza manual limitada, tempo de atenção reduzido e motivação variável, o que compromete a qualidade da remoção da placa.
Nesse contexto, as escovas elétricas surgiram como uma alternativa promissora. Ao oferecer um movimento padronizado (oscilação‑rotação, sônica ou ultrassônica), esses dispositivos buscam compensar as limitações das técnicas manuais, especialmente em faixas etárias onde a coordenação motora ainda está em desenvolvimento.
No entanto, uma questão central permanece na prática clínica: a escova elétrica realmente oferece benefícios adicionais na remoção de placa em crianças e adolescentes em comparação com a escova manual — e, se sim, qual tecnologia se destaca?
As revisões sistemáticas publicadas em 2023 e 2025, juntamente com ensaios clínicos randomizados recentes, sintetizaram as melhores evidências disponíveis sobre o tema. Este artigo analisa esses estudos, explorando suas metodologias, resultados e implicações práticas para a orientação de pacientes pediátricos e suas famílias.
2. O desafio da escovação eficaz em pacientes pediátricos
A placa bacteriana é o principal fator etiológico da cárie dentária e da gengivite — condições que ainda afetam uma proporção substancial da população infantil e adolescente em todo o mundo. A escovação regular e eficaz é, portanto, a intervenção mais importante no âmbito da higiene bucal.
No entanto, diversos fatores limitam a eficácia da escovação manual nessa faixa etária:
- Destreza manual em desenvolvimento: crianças pequenas ainda não possuem o controle motor fino necessário para realizar técnicas complexas (como a técnica de Bass modificada).
- Tempo de atenção reduzido: a dificuldade em manter uma escovação com duração adequada (2 minutos) é particularmente prevalente em crianças com transtornos do neurodesenvolvimento.
- Motivação variável: sem supervisão adequada, muitas crianças realizam a escovação de forma apressada ou negligenciam determinadas áreas.
Escovas elétricas, especialmente aquelas com temporizadores embutidos, pressão controlada e design interativo, foram desenvolvidas para abordar essas limitações. Contudo, a questão fundamental permanecia sem resposta robusta até a publicação das metanálises mais recentes.
3. A revisão de Dağdeviren et al. (2025): evidências de alta qualidade
3.1 Metodologia do estudo
Publicada no International Journal of Dental Hygiene em 2025, esta revisão sistemática com metanálise foi conduzida por pesquisadores do Academic Centre for Dentistry Amsterdam (ACTA). O objetivo primário foi avaliar a eficácia da autoescovação com escovas elétricas de cabeça única em comparação com escovas manuais de cabeça única, especificamente em crianças saudáveis, com menos de 18 anos de idade e sem aparelhos ortodônticos fixos.
As buscas foram realizadas nas bases MEDLINE‑PubMed e Cochrane CENTRAL, abrangendo publicações até novembro de 2023. Foram incluídos apenas ensaios clínicos randomizados, publicados em inglês ou alemão, que compararam escovas elétricas recarregáveis com escovas manuais. O risco de viés foi avaliado por dois revisores independentes, e os dados foram extraídos para metanálise.
3.2 Definição de escova elétrica
Os autores estabeleceram uma definição rigorosa para escovas elétricas: dispositivos com um motor elétrico que transforma eletricidade em ação mecânica, impulsionando a cabeça da escova. Foram incluídas apenas escovas recarregáveis — aquelas que utilizam pilhas substituíveis ou que não possuem cabeça móvel foram excluídas.
3.3 Achados sobre remoção de placa
A busca inicial identificou 12 publicações elegíveis, abrangendo 30 comparações relevantes. Os resultados mostraram uma diferença de médias (DiffM) significativa nos escores de placa em favor da escova elétrica, tanto para escovação de uso único quanto para uso domiciliar a curto prazo.
De forma mais detalhada:
- Uso único: DiffM‑final = −0,26 (IC 95% [−0,31; −0,21]; p < 0,00001)
- Uso domiciliar a curto prazo: diferença significativa igualmente em favor da escova elétrica
A análise subgrupo dos mecanismos de ação mostrou que a superioridade observada se aplica principalmente a escovas com movimento oscilante‑rotatório, um dado de relevância para recomendações clínicas mais refinadas.
3.4 Achados sobre gengivite
Um achado particularmente relevante para a prática clínica foi a análise do índice gengival. A metanálise demonstrou nenhuma diferença significativa entre escovas elétricas e manuais na redução da gengivite. Este ponto merece atenção, pois sugere que, embora as escovas elétricas possam remover mais placa em curto prazo, essa vantagem não se traduz necessariamente em melhores desfechos de saúde gengival a longo prazo.
3.5 Qualidade da evidência
Os autores classificaram a certeza da evidência como moderada segundo o sistema GRADE para o desfecho de remoção de placa. Contudo, para o índice gengival e sangramento gengival, a qualidade da evidência foi baixa.
4. A revisão de Goyal et al. (2023): magnitute da redução da placa
4.1 Metodologia do estudo
Publicada em fevereiro de 2023 no Dentistry Journal (MDPI), esta revisão sistemática com metanálise utilizou o protocolo PRISMA para avaliar o efeito relativo das escovas elétricas no índice de placa em pacientes pediátricos. As buscas foram conduzidas na base PubMed, com 322 estudos inicialmente identificados. Após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão, 38 estudos foram incluídos na análise final: 27 envolvendo pacientes não ortodônticos e 11 envolvendo pacientes ortodônticos.
Foram excluídos estudos envolvendo pacientes adultos, estudos in vitro, pacientes com deficiência física ou intelectual que impedisse a autoescovação e aqueles que não utilizavam índices de placa validados.
4.2 Resultados da metanálise
A análise estatística revelou uma redução média do índice de placa de 17,2% em pacientes pediátricos não ortodônticos que utilizaram escovas elétricas em comparação com escovas manuais. Para pacientes ortodônticos, a redução média foi de 13,9%.
As comparações entre as medidas de linha de base e os pontos finais demonstraram que:
- A comparação entre o grupo manual e a linha de base não foi estatisticamente significativa (p = 0,065)
- A comparação entre o grupo elétrico e a linha de base foi estatisticamente significativa (p = 0,0073)
A magnitude da redução da placa variou entre 0,23% e 35,4% nos diferentes estudos incluídos.
5. O ensaio clínico de Bader et al. (2025): comparação de três tipos de escova
5.1 Metodologia do estudo
Publicado no Journal of Clinical Pediatric Dentistry em 2025, este ensaio clínico randomizado, simples‑cego, incluiu 111 crianças com idades entre 6 e 12 anos. Os participantes foram randomizados em três grupos:
- Escova manual (grupo controle)
- Escova musical (escova manual com recursos interativos de áudio)
- Escova elétrica (movimento oscilante‑rotatório)
Todos os participantes foram instruídos a escovar os dentes duas vezes ao dia por 2 minutos durante um período de 45 dias. Os níveis de placa foram avaliados utilizando o Índice de Placa de Quigley‑Hein nos dias 0 (linha de base), 15, 30 e 45, sempre após 24 horas sem higiene bucal e com uso de solução reveladora antes e depois da escovação supervisionada.
5.2 Resultados
As análises intragrupo mostraram redução significativa da placa em todos os grupos em todos os pontos de avaliação, com uma exceção: no grupo escova elétrica, a redução no dia 45 não foi estatisticamente significativa (p = 0,083).
As análises intergrupo indicaram que as escovas elétrica e musical apresentaram, em geral, maior remoção de placa do que a escova manual, particularmente nas avaliações iniciais (dias 15 e 30). No entanto, algumas diferenças não atingiram significância estatística.
5.3 Implicações
A conclusão do estudo — de que escovas musicais e elétricas foram mais eficazes do que escovas manuais — é coerente com as metanálises. Contudo, a atenuação do efeito ao longo do tempo (45 dias) sugere que o benefício pode estar relacionado a um efeito de novidade inicial, que diminui à medida que os participantes se familiarizam com o dispositivo.
6. Tecnologias de escovas elétricas: uma meta‑análise de rede
Embora não exclusiva para pacientes pediátricos, uma meta‑análise de rede publicada em 2026 no Clinical Oral Investigations avaliou diretamente as diferentes tecnologias de escovas elétricas — um subproduto de relevância para a escolha clínica.
Foram incluídos 19 ensaios clínicos randomizados. O ranking de eficácia para remoção de placa, medido pelo Surface Under the Cumulative Ranking (SUCRA), foi o seguinte:
| Tecnologia | SUCRA para placa | SUCRA para gengivite |
|---|---|---|
| Oscilante‑rotatória | 89,2% | 87,5% |
| Sônica | 72,4% | 68,2% |
| Ultrassônica | 54,1% | 51,0% |
| Outras elétricas | 45,3% | 42,7% |
| Manual | 18,3% | 21,0% |
As análises de subgrupo indicaram benefícios superiores para pacientes ortodônticos e crianças. O risco de viés foi classificado como baixo na maioria dos estudos, e nenhuma inconsistência significativa foi detectada.
7. Considerações sobre populações especiais
7.1 Pacientes ortodônticos
A evidência sobre o benefício das escovas elétricas em adolescentes com aparelhos ortodônticos fixos é complexa. Uma metanálise de 2023, incluindo 11 estudos, relatou uma redução média de 13,9% no índice de placa com o uso de escovas elétricas.
No entanto, um estudo de 2023 publicado no European Journal of Orthodontics com 84 participantes (12‑18 anos) em tratamento ortodôntico fixo não encontrou diferenças entre escovas manuais e elétricas em termos de índice de placa, índice gengival ou sangramento à sondagem após 12 meses.
Uma possível explicação reside no tipo específico de escova elétrica utilizada. Estudos com escovas interativas (com temporizador e aplicativo) demonstraram superioridade consistente — um ensaio de 2023 relatou que uma escova interativa proporcionou redução significativamente maior da placa (p < 0,001) em comparação com escova manual.
7.2 Crianças com necessidades especiais
Uma metanálise de 2025 analisou especificamente crianças com necessidades especiais de cuidado (CSCNs), incluindo 12 estudos. Os resultados mostraram que escovas elétricas foram superiores às manuais no índice gengival (SMD -0,681; IC 95% [−0,911; −0,451]) e no índice de placa Quigley‑Hein (SMD -0,85; IC 95% [−1,166; −0,53]). No entanto, a qualidade geral da evidência foi classificada como baixa.
Um ensaio clínico de 2026 com crianças com TDAH com e sem TDAH, com idade entre 8‑10 anos, também revelou nuances importantes: ambos os tipos de escova foram igualmente eficazes para remoção imediata de placa. No entanto, em crianças com TDAH, o grupo que utilizou escova elétrica apresentou escores gengivais significativamente piores aos 3 meses (p = 0,01), sugerindo que o uso efetivo de escovas elétricas pode exigir suporte adicional nessa população.
8. Considerações práticas para o clínico
Com base nas evidências sintetizadas, é possível oferecer as seguintes orientações:
| Tipo de paciente | Recomendação | Justificativa |
|---|---|---|
| Crianças saudáveis (6‑12 anos) | Escova elétrica (oscilante‑rotatória) | Evidência moderada de redução superior de placa (17,2% em média); benefícios são pequenos, mas consistentes |
| Adolescentes (12‑18 anos) | Escova manual ou elétrica, com ênfase na técnica | Evidência mais limitada; benefício não se traduz consistentemente em melhores desfechos gengivais |
| Adolescentes com aparelhos ortodônticos | Escova elétrica interativa | Benefício significativo para placa; redução média de 13,9% |
| Crianças com TDAH ou outras dificuldades de concentração | Escova manual, com supervisão reforçada | Evidência emergente de piores desfechos gengivais com escovas elétricas em algumas populações |
| Pacientes com necessidades especiais de cuidado | Escova elétrica | Benefício favorável observado, mas qualidade da evidência é baixa |
9. Conclusão
As evidências atuais — sintetizadas a partir de revisões sistemáticas, metanálises e ensaios clínicos randomizados — demonstram que:
- Escovas elétricas são mais eficazes do que escovas manuais na remoção de placa bacteriana em crianças saudáveis (redução média de 17,2%). A certeza dessa evidência é moderada segundo o sistema GRADE.
- Essa vantagem não se traduz consistentemente em melhor controle da gengivite, sugerindo que o benefício clínico de longo prazo do uso de escovas elétricas pode ser limitado.
- A tecnologia oscilante‑rotatória apresenta o melhor desempenho geral para redução de placa e gengivite, com SUCRA de 89,2% e 87,5%, respectivamente.
- Populações especiais exigem considerações específicas: em crianças com aparelhos ortodônticos, as escovas elétricas interativas demonstram benefícios consistentes (redução de 13,9% no índice de placa), enquanto em crianças com TDAH, a escova manual pode ser preferível devido a melhores desfechos gengivais.
Para o cirurgião‑dentista, a mensagem final é: a recomendação de uma escova elétrica para pacientes pediátricos deve basear‑se em uma avaliação individualizada. Para a criança típica sem comorbidades e com motivação preservada, a escova elétrica (em particular, a tecnologia oscilante‑rotatória) oferece um pequeno, mas mensurável benefício adicional na remoção de placa. No entanto, a ênfase deve permanecer na qualidade da escovação, duração (2 minutos), frequência (duas vezes ao dia) e supervisão parental. O melhor dispositivo é, em última análise, aquele que a criança utiliza corretamente e com prazer.
Referências
- Dağdeviren F, Van der Weijden GA, Zijlstra CP, Slot DE. The Effectiveness of Power Versus Manual Toothbrushes on Plaque Removal and Gingival Health in Children—A Systematic Review and Meta-Analysis. Int J Dent Hygiene. 2025;23:682-702. DOI: 10.1111/idh.12915.
- Goyal S, et al. Systematic Review and Meta Analysis of the Relative Effect on Plaque Index among Pediatric Patients Using Powered (Electric) versus Manual Toothbrushes. Dent J. 2023;11(2):46. DOI: 10.3390/dj11020046.
- Bader AK, Issrani R, Hashem AS, Alruwaili SMM, Magar S, Prabhu N. Efficacy of manual, musical and electric toothbrushes in plaque removal in children—a randomized clinical trial. J Clin Pediatr Dent. 2025;49(3):54-63. DOI: 10.22514/jocpd.2025.050.
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