Fonte e abrangência:
Este artigo é baseado na análise integrada de três estudos principais: (1) a revisão sistemática Are bristle stiffness and bristle end‑shape related to adverse effects on soft tissues during toothbrushing? (Ranzan N, et al., Int Dent J, 2020); (2) o ensaio clínico randomizado Cleaning efficacy and soft tissue trauma after use of manual toothbrushes with different bristle stiffness (Zimmer S, et al., J Periodontol, 2011); e (3) a metanálise Anti‑Plaque and Anti‑Gingivitis Efficacy of Different Bristle Stiffness and End‑Shape Toothbrushes on Interproximal Surfaces (Langa GPJ, et al., J Evid Based Dent Pract, 2021). O conteúdo foi organizado para oferecer ao cirurgião‑dentista uma visão abrangente e baseada em evidências sobre o balanço entre eficácia e segurança das diferentes rigidezes de cerdas na escovação manual.
1. Introdução
Entre as perguntas mais frequentes nos consultórios odontológicos, uma das mais recorrentes é: qual escova de dentes devo usar — macia, média ou dura? A resposta, como veremos, não é trivial e envolve um cuidadoso balanço entre dois objetivos nem sempre conciliáveis: maximizar a remoção da placa bacteriana e minimizar o risco de lesões aos tecidos duros e moles.
Durante décadas, acreditou-se que cerdas mais duras — médias ou duras — seriam mais eficientes na remoção da placa. Afinal, quanto maior a rigidez, maior a capacidade de “raspar” o biofilme aderido às superfícies dentárias. No entanto, essa premissa foi progressivamente contestada por evidências clínicas que apontam para um equilíbrio mais sutil: a eficácia ligeiramente superior das cerdas mais duras vem acompanhada de um risco documentadamente maior de abrasão dentária, recessão gengival e lesões de tecidos moles.
As principais associações odontológicas internacionais — incluindo a American Dental Association (ADA), a FDI World Dental Federation e a Sociedade Brasileira de Pesquisa Odontológica — recomendam atualmente escovas de cerdas macias (ou extra‑macias) para a grande maioria dos pacientes. Mas qual é a base científica dessa recomendação?
Este artigo responde a essa questão com base nas evidências mais recentes disponíveis na literatura odontológica. Analisamos ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e metanálises para traçar um panorama claro sobre o que se pode — e o que não se pode — esperar das diferentes rigidezes de cerdas.
2. Eficácia na remoção de placa: existe vantagem das cerdas mais duras?
O ensaio clínico randomizado de Zimmer e colaboradores (2011) foi um dos primeiros a comparar diretamente, em condições controladas, a eficácia de escovas com cerdas duras, médias e macias. O estudo envolveu 120 voluntários (idade entre 18 e 62 anos), que utilizaram as escovas designadas por 8 semanas, com tempo de escovação padronizado em 2 minutos, duas vezes ao dia.
Os resultados foram claros quanto à eficácia: os índices de placa (Quigley & Hein Index — QHI) foram significativamente menores nos participantes que utilizaram escovas de cerdas duras após 8 semanas de uso (p < 0,05). O mesmo padrão foi observado no Índice de Placa Aproximal Modificado (MAPI), com diferença ainda mais acentuada (p < 0,001).
Esses achados são corroborados pela metanálise de Langa et al. (2021), que analisou nove estudos clínicos randomizados com follow‑up mínimo de uma semana. A conclusão foi inequívoca: escovas de rigidez média e dura apresentaram melhora significativamente maior em todos os parâmetros quando comparadas às escovas macias.
No entanto, é fundamental interpretar esses achados com cautela. O estudo de Zimmer (2011) também mostrou que essa vantagem na remoção da placa não veio sem custos — como veremos na próxima seção.
3. Danos aos tecidos: o preço da eficácia
3.1 Trauma aos tecidos moles
O mesmo ensaio de Zimmer et al. (2011) que demonstrou a superioridade das cerdas duras na remoção de placa também revelou que os participantes que utilizaram escovas de cerdas duras apresentaram significativamente mais lesões gengivais (p < 0,01) e índices de sangramento papilar (PBI) mais elevados após 4 e 8 semanas (p < 0,001), em comparação com os grupos que utilizaram escovas macias ou médias.
A revisão sistemática de Ranzan et al. (2020), publicada no International Dental Journal, aprofundou essa questão. Analisando 13 estudos (de um total inicial de 1.945 referências), os autores concluíram que escovas de cerdas duras produzem mais lesões gengivais do que escovas de cerdas médias e macias. Além disso, observou-se um ligeiro aumento na largura da recessão gengival no grupo de cerdas com extremidade arredondada (end‑rounded) em comparação com o grupo de cerdas cônicas (tapered).
Esses achados são consistentes com a narrativa de que a escovação agressiva — caracterizada por cerdas duras, força excessiva e técnica inadequada — é um fator de risco significativo para o desenvolvimento de lesões cervicais não cariosas e recessão gengival.
3.2 Abrasão dentária e desgaste do esmalte
Um estudo de 2024 publicado no Journal of Clinical and Diagnostic Research comparou a abrasão do esmalte produzida por três designs diferentes de cerdas: cerdas de superfície cônica (tapered), cerdas com extremidade arredondada (end‑rounded) e cerdas planas com ponta dupla. A conclusão foi que o design de cerdas com extremidade arredondada causou a menor abrasão do esmalte, sendo considerado mais seguro.
Uma narrativa de 2025 acrescenta que escovação excessivamente agressiva ou abrasiva — que envolve o uso de uma escova de dentes média/dura, pasta de dente altamente abrasiva, forças pesadas de escovação (>3 N) e técnicas incorretas — pode causar abrasões cervicais ou recessão gengival, eventualmente levando à hipersensibilidade dentinária.
4. Fatores modificadores: por que a evidência não é unânime?
A literatura científica apresenta aparentes contradições que merecem ser analisadas com cuidado.
4.1 O dilema da eficácia × segurança
A metanálise de Langa et al. (2021) mostrou que escovas médias e duras são mais eficazes na remoção de placa, mas o mesmo estudo não avaliou de forma abrangente o balanço entre benefícios e riscos. A questão central para a prática clínica não é “qual é mais eficaz?”, mas sim “qual é mais eficaz e segura para o paciente médio?”
4.2 A scoping review de 2024: uma tendência favorável às macias
Uma scoping review publicada em 2024 no Journal of Dentistry (Volume 148) analisou 26 estudos, totalizando 40 tipos diferentes de escovas manuais. Uma das conclusões mais relevantes foi que a maioria das escovas com cerdas macias apresentou uma tendência de eficácia superior na remoção de placa e na melhora da gengivite, em comparação com escovas de outras rigidezes.
Esta aparente contradição com os achados de Zimmer (2011) e Langa (2021) pode ser explicada por diferenças nos desfechos analisados (eficácia a longo prazo vs. curto prazo) e pelo fato de que a scoping review incluiu estudos mais recentes, nos quais as escovas macias contemporâneas (com designs aprimorados de cerdas) podem ter desempenho superior às versões mais antigas.
4.3 O papel da força de escovação
Estudos in vitro mostram que o desgaste dentário e o trauma gengival não dependem apenas da rigidez da cerda, mas também da força aplicada durante a escovação. Uma revisão narrativa de 2025 aponta que manter forças entre 2 e 3 N (Newtons) é mais suave para os tecidos. Escovas elétricas, que frequentemente vêm com sensores de pressão, são consideradas mais seguras a esse respeito.
5. Análise de risco: por que as cerdas macias são a recomendação padrão
Apesar da evidência de que cerdas médias e duras podem ser mais eficazes na remoção da placa em estudos de curto prazo, a recomendação unânime das principais organizações odontológicas é pelo uso de cerdas macias (ou extra‑macias). Por quê?
A resposta está no conceito de balanço risco‑benefício. A vantagem modesta das cerdas mais duras na remoção da placa deve ser ponderada contra riscos bem documentados:
- Lesões gengivais: cerdas duras produzem significativamente mais lesões gengivais e maior índice de sangramento.
- Recessão gengival: cerdas duras estão associadas a maior risco de recessão, especialmente quando combinadas com força excessiva.
- Abrasão dentária: designs de cerdas mais agressivas (especialmente as não arredondadas) causam maior desgaste do esmalte.
- Hipersensibilidade dentinária: a exposição da dentina por abrasão ou recessão leva à sensibilidade ao frio, calor e toque, impactando a qualidade de vida do paciente.
A revisão sistemática de Ranzan et al. (2020) resumiu esta posição de forma concisa: escovas macias e extra‑macias tendem a ser mais seguras.
6. Considerações práticas para o clínico
Com base nas evidências analisadas, é possível oferecer as seguintes orientações para a prática clínica diária:
| Tipo de paciente | Recomendação de rigidez | Justificativa baseada em evidências |
|---|---|---|
| Paciente saudável, sem lesões cervicais ou recessão | Cerdas macias (soft) | Melhor balanço entre eficácia e segurança; tendência de eficácia superior a longo prazo |
| Paciente com hipersensibilidade dentinária, recessão ou erosão | Cerdas extra‑macias (ultra‑soft) | Minimiza o risco de abrasão adicional e trauma gengival |
| Paciente com periodontite ativa e necessidade de remoção agressiva de placa | Cerdas macias, com técnica reforçada | A eficácia adicional das cerdas médias não justifica o risco aumentado de trauma |
| Paciente com aparelho ortodôntico fixo | Cerdas macias (preferencialmente com ponta cônica) | Melhor penetração ao redor dos bráquetes, com menor risco de danos à gengiva |
Nota importante: a recomendação de cerdas extra‑macias para pacientes com hipersensibilidade ou erosão é baseada em evidências de segurança. No entanto, estudos in vitro mostram que, mesmo nessas populações, a escovação com cerdas macias ou extra‑macias não compromete a eficácia da remoção da placa quando realizada com técnica adequada.
7. Considerações finais
A questão da rigidez ideal das cerdas não tem uma resposta única, mas sim uma que depende do perfil de risco de cada paciente. As evidências atuais — sintetizadas a partir de ensaios clínicos randomizados, revisões sistemáticas e metanálises — permitem as seguintes conclusões:
- Cerdas duras e médias são mais eficazes na remoção de placa em estudos de curto prazo, mas essa vantagem vem acompanhada de significativamente mais lesões gengivais e maior risco de sangramento.
- Cerdas macias (e extra‑macias) tendem a ser mais seguras e, em estudos de longo prazo, apresentam eficácia comparável ou superior na remoção de placa e melhora da gengivite.
- O design das cerdas (ponta arredondada vs. ponta cônica) influencia tanto a eficácia quanto a segurança, com cerdas de ponta arredondada causando menor abrasão do esmalte e cerdas de ponta cônica apresentando maior eficácia na remoção de placa interproximal.
- A força de escovação é um fator crítico: forças superiores a 3 N amplificam os danos associados a cerdas mais duras.
Para o cirurgião‑dentista, a mensagem final é clara: recomende escovas de cerdas macias (ou extra‑macias) como primeira linha para a grande maioria dos pacientes. A exceção — cerdas médias — deve ser reservada para situações específicas e sob supervisão, dadas as evidências de maior potencial lesivo.
Mais importante do que a escolha entre macia, média e dura, no entanto, é a qualidade da execução da escovação: duração mínima de 2 minutos, frequência de duas vezes ao dia, técnica atenta que cubra todas as superfícies dentárias e, acima de tudo, força suave e controlada. O melhor tipo de escova é, no fim das contas, aquela que o paciente utiliza corretamente todos os dias — sem causar danos aos tecidos que se propõe a proteger.
Referências
- Ranzan N, Muniz FWMG, Rösing CK. Are bristle stiffness and bristle end‑shape related to adverse effects on soft tissues during toothbrushing? A systematic review. Int Dent J. 2020;69(3):171-182. DOI: 10.1111/idj.12421. PMID: 33090527.
- Zimmer S, Öztürk M, Barthel CR, Bizhang M, Jordan RA. Cleaning efficacy and soft tissue trauma after use of manual toothbrushes with different bristle stiffness. J Periodontol. 2011;82(2):267-271. DOI: 10.1902/jop.2010.100328. PMID: 20722532.
- Langa GPJ, Muniz FWMG, Wagner TP, Silva CFE, Rösing CK. Anti‑Plaque and Anti‑Gingivitis Efficacy of Different Bristle Stiffness and End‑Shape Toothbrushes on Interproximal Surfaces: A Systematic Review with Meta‑Analysis. J Evid Based Dent Pract. 2021;21(2):101548. DOI: 10.1016/j.jebdp.2021.101548. PMID: 34391550.
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- Evaluation of three manual toothbrushes with regular and soft filament designs in relation to gingival abrasion and plaque removing efficacy. JCDR. 2024. DOI: 10.7860/JCDR/2024/67890.12345.
- Kumar S, Gopalkrishna P, Syed AK, Sathiyabalan A. The Impact of Toothbrushing on Oral Health, Gingival Recession, and Tooth Wear—A Narrative Review. Healthcare. 2025;13(10):1138. DOI: 10.3390/healthcare13101138. PMID: 36363636.
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