Fonte e abrangência: Este artigo é baseado na revisão narrativa Restorative Strategies for Endodontically Treated Teeth: A Comprehensive Review, de Ahmed Adel Naguib Khater, Ingy Nouh e Ahmed Khaled Abo El Fadl, publicada no African Journal of Biological Sciences em 2025 (Volume 7, Número 8, páginas 401-422; DOI: 10.48047/AFJBS.7.8.2025.401-422). O trabalho sintetiza as evidências atuais sobre o manejo restaurador de dentes que sofreram tratamento endodôntico, com ênfase na transição do modelo tradicional (pino, núcleo e coroa) para abordagens mais conservadoras e biomiméticas, como as coroas endocrown e os overlays adesivos. Este conteúdo foi organizado para oferecer ao clínico uma visão atualizada e prática sobre a reabilitação de dentes fragilizados.
1. Introdução
O tratamento endodôntico é um procedimento salvador que permite a manutenção de dentes com polpa irreversivelmente comprometida ou necrosada. No entanto, é consenso na literatura que dentes tratados endodonticamente (DTE) apresentam maior suscetibilidade a fraturas quando comparados a dentes vitais. Durante décadas, acreditou-se que essa fragilidade decorria principalmente da perda de umidade e de alterações estruturais da dentina promovidas pelos irrigantes e medicamentos intracanais. Estudos mais recentes, porém, demonstraram que o fator determinante para a resistência do DTE é a quantidade de estrutura coronária remanescente, e não o tratamento endodôntico em si.
A revisão abrangente publicada em 2025 por Khater, Nouh e Abo El Fadl, no African Journal of Biological Sciences, representa um marco na sistematização do conhecimento sobre as estratégias restauradoras para DTEs. Os autores percorrem desde os conceitos biomecânicos fundamentais até as mais recentes técnicas adesivas e materiais, com destaque para as coroas endocrown e os overlays — abordagens que eliminam a necessidade de pinos intrarradiculares e preservam a estrutura dental remanescente.
Este artigo apresenta uma análise detalhada dessa revisão, explorando seus principais tópicos: a mudança de paradigma do modelo tradicional (pino, núcleo e coroa) para o modelo biomimético; as indicações, vantagens e limitações das coroas endocrown; o papel dos materiais cerâmicos e das técnicas adesivas; e um fluxo de tomada de decisão clínica baseado na quantidade de estrutura remanescente.
2. A mudança de paradigma: do modelo tradicional ao biomimético
2.1 O modelo tradicional: pino, núcleo e coroa
Por muitas décadas, a abordagem padrão para restaurar um dente tratado endodonticamente com perda coronária significativa envolvia três etapas:
- Colocação de um pino intrarradicular (metálico fundido ou pré‑fabricado, posteriormente de fibra de vidro) para fornecer retenção ao núcleo.
- Confecção de um núcleo de preenchimento (amálgama, resina composta ou material específico) sobre o pino.
- Coroana total (metalocerâmica, cerâmica pura ou zircônia) sobre o núcleo, com desgaste periférico de aproximadamente 1,5 a 2,0 mm.
Esse modelo, embora eficaz em muitas situações, apresenta desvantagens significativas:
- Remoção adicional de estrutura dental: o preparo para o pino exige alargamento do canal, removendo dentina radicular e enfraquecendo a raiz.
- Risco de fratura radicular: pinos rígidos (especialmente metálicos) concentram tensões no ápice ou no terço médio da raiz, podendo levar a fraturas verticais catastróficas.
- Custo e tempo: múltiplas sessões, laboratório protético, maior custo ao paciente.
2.2 O modelo biomimético: preservar e aderir
A revisão de Khater et al. (2025) defende uma mudança radical: sempre que possível, deve‑se evitar o uso de pinos intrarradiculares e optar por restaurações que se fixem exclusivamente por adesão à estrutura coronária remanescente. O princípio biomimético busca imitar a função e a resistência do dente natural, distribuindo as cargas mastigatórias de forma fisiológica.
As duas principais estratégias biomiméticas discutidas são:
- Overlay adesivo direto ou indireto: restauração que cobre as cúspides remanescentes, unindo‑as por adesão, sem necessidade de retenção intrarradicular.
- Coroa endocrown: uma peça cerâmica monobloco que se encaixa e se adere à câmara pulpar e à superfície oclusal do dente, eliminando completamente o pino e o núcleo.
Essas abordagens são particularmente indicadas para dentes posteriores (molares e pré‑molares) que, após o tratamento endodôntico, ainda preservam pelo menos duas paredes coronárias íntegras e uma altura mínima de 3‑4 mm de dentina pericervical.
3. Coroas endocrown: conceito, indicações e evidências
3.1 O que é uma coroa endocrown?
A endocrown é uma restauração indireta, geralmente confeccionada em cerâmica (dissilicato de lítio, zircônia ou cerâmica vítrea), que se estende da superfície oclusal até o interior da câmara pulpar, utilizando o espaço do acesso endodôntico como retenção adicional (a chamada “projeção apical” ou buttress). Ela é cimentada adesivamente como uma peça única, sem necessidade de pino intrarradicular.
O termo “endocrown” foi introduzido por Pissis (1995) e popularizado por Bindl e Mörmann (1999) com o sistema CEREC. Sua principal característica é a retenção macrorretentiva proporcionada pela própria câmara pulpar, associada à microrretenção adesiva da cerâmica à estrutura dentária.
3.2 Indicações preferenciais
Com base na revisão de Khater et al. (2025), as indicações mais favoráveis para endocrowns incluem:
- Dentes posteriores (pré‑molares e molares) tratados endodonticamente.
- Perda coronária de moderada a extensa, mas com parede dentária remanescente com altura mínima de 3 mm em toda a circunferência.
- Espessura de dentina pericervical ≥ 2 mm (fator mais importante para o sucesso).
- Dentes com acesso endodôntico amplo, que serve como área de retenção adicional.
- Pacientes com bom controle de higiene e sem hábitos parafuncionais severos (ou com placa miorrelaxante).
3.3 Contraindicações
- Dentes com altura coronária insuficiente (< 3 mm de parede remanescente).
- Trincas radiculares extensas (ver artigo 5 desta série).
- Pacientes com bruxismo severo não controlado (risco de fratura da cerâmica).
- Dentes anteriores (incisivos e caninos) — a endocrown tem baixa retenção nesses casos devido à geometria desfavorável da câmara pulpar.
3.4 Evidências clínicas
A revisão de Khater et al. (2025) cita vários estudos de longo prazo. Um dos mais relevantes é o de Otto e De Nisco (2002), que acompanhou restaurações CEREC por 10 anos e relatou taxa de sobrevivência de 95,4% para endocrowns em molares. Estudos mais recentes mostram:
- Sobrevida em 5 anos: 94‑98% para endocrowns em dissilicato de lítio.
- Sobrevida em 10 anos: 85‑92%, dependendo das condições oclusais e do material.
- Comparação com coroas convencionais: a endocrown apresenta taxas semelhantes ou ligeiramente superiores, com a vantagem de ser mais conservadora (menos desgaste dental) e mais rápida (geralmente duas consultas).
Os autores da revisão destacam que a principal causa de falha da endocrown é a fratura da cerâmica (especialmente em pacientes com bruxismo ou com espessura insuficiente do material), seguida por perda de retenção adesiva (mais comum em dentes com câmara pulpar rasa).
4. Overlays e onlays adesivos
Alternativamente, para dentes com perda estrutural menos extensa ou quando se deseja uma abordagem ainda mais conservadora, os overlays (cobertura total das cúspides) e onlays (cobertura parcial) são opções excelentes.
A revisão de Khater et al. (2025) enfatiza que, ao contrário do que muitos clínicos pensam, um dente tratado endodonticamente não precisa obrigatoriamente de uma coroa total se houver pelo menos 50‑60% de estrutura coronária remanescente. Nesses casos, um overlay adesivo em cerâmica ou resina composta indireta pode devolver a função com mínimo desgaste.
As vantagens dos overlays sobre as coroas totais incluem:
- Preservação de esmalte e dentina sadios.
- Menor risco de exposição de canais acessórios.
- Possibilidade de reparo, caso necessário.
5. O papel dos materiais e da adesão
A revisão dedica uma seção importante aos materiais utilizados para endocrowns e overlays:
- Dissilicato de lítio (IPS e.max CAD e press): material de eleição para a maioria dos casos. Alta resistência flexural (360‑400 MPa), excelente estética, possibilidade de cimentação adesiva com alta previsibilidade. Pode ser usado em espessuras de 1,0‑1,5 mm.
- Cerâmica vítrea reforçada por zircônia (Vita Suprinity, Celtra Duo): módulo de elasticidade intermediário, boa resistência, mas menor translucidez que o dissilicato.
- Zircônia monolítica: indicada para pacientes com bruxismo ou espaços interoclusais reduzidos. Exige cimentação convencional (não adesiva) e maior desgaste do antagonista.
- Resinas compostas indiretas (Crios, Lava Ultimate): opção de baixo custo, mais fáceis de ajustar e reparar, mas com menor resistência à fratura e maior desgaste superficial.
Quanto à técnica adesiva, os autores reforçam a necessidade de:
- Isolamento absoluto.
- Condicionamento ácido do esmalte e dentina (quando aplicável).
- Aplicação de sistema adesivo universal ou de três passos.
- Para cerâmicas vítreas: condicionamento com ácido fluorídrico (5‑10%) + silanização.
- Cimentação com cimento resinoso dual (ex.: Variolink, RelyX Ultimate).
6. Fluxo de tomada de decisão clínica
Com base na revisão de Khater et al. (2025), propõe-se o seguinte algoritmo para o DTE:
- Avaliar a estrutura coronária remanescente:
- ≥ 4 paredes íntegras ou com pequenas restaurações → restauração direta em resina composta com cobertura de cúspides (overlay direto) pode ser suficiente.
- 2‑3 paredes íntegras, altura ≥ 3 mm → endocrown em dissilicato de lítio.
- 1 parede ou menos, altura < 3 mm → coroa total com pino de fibra de vidro (se houver dentina radicular suficiente) ou extração (se a raiz for muito curta).
- Considerar a presença de trincas ou fraturas:
- Trinca limitada à coroa → endocrown com cobertura total é a melhor opção.
- Trinca com extensão radicular → avaliar selamento com Biodentine + coroa total (ver artigo 5).
- Considerar hábitos parafuncionais:
- Bruxismo leve/moderado → endocrown + placa miorrelaxante.
- Bruxismo severo → zircônia monolítica ou coroa metálica (se estética não for prioritária).
- Considerar a posição na arcada:
- Molares → endocrown ou overlay.
- Pré‑molares → endocrown (pode ser desafiadora pela câmara pulpar pequena) ou coroa convencional.
- Anteriores → evitar endocrown; optar por pino de fibra + núcleo + coroa.
7. Conclusão
A revisão abrangente de Khater, Nouh e Abo El Fadl (2025) consolida uma mudança de paradigma na odontologia restauradora: dentes tratados endodonticamente não precisam mais ser automaticamente condenados a pinos e coroas totais. As estratégias biomiméticas — especialmente as coroas endocrown e os overlays adesivos — oferecem resultados clínicos de longo prazo comparáveis ou superiores, com a vantagem de serem mais conservadoras, mais rápidas e menos agressivas ao remanescente dental.
Para o clínico, a principal lição é: antes de planejar um pino intrarradicular, pergunte‑se se a estrutura coronária remanescente é suficiente para suportar uma endocrown ou um overlay. Na grande maioria dos molares e pré‑molares tratados endodonticamente com perda coronária moderada, a resposta é sim. E quando a resposta é não, ainda assim o pino de fibra de vidro, associado a um núcleo de resina e uma coroa total, continua sendo a opção de resgate.
A odontologia baseada em evidências, sintetizada por essa revisão de 2025, caminha irreversivelmente na direção da preservação, da adesão e da biomimética — princípios que beneficiam tanto o dente quanto o paciente.
Referências
- Khater AAN, Nouh I, Abo El Fadl AK. Restorative Strategies for Endodontically Treated Teeth: A Comprehensive Review. Afr J Biol Sci. 2025;7(8):401-422. DOI: 10.48047/AFJBS.7.8.2025.401-422.
- Bindl A, Mörmann WH. Clinical evaluation of adhesively placed CEREC endocrowns after 2 years. Int J Comput Dent. 1999;2(3):185-95.
- Otto T, De Nisco S. Computer-aided direct ceramic restorations: a 10-year prospective clinical study of CEREC CAD/CAM inlays and onlays. Int J Comput Dent. 2002;5(1):1-10.
- de Toubes KMS, et al. Optimization of Results for Cracked Teeth Using CAD‑CAM System. Iran Endod J. 2020;15(1):57-63.
- Davis MC, Shariff SS. Success and Survival of Endodontically Treated Cracked Teeth with Radicular Extensions. J Endod. 2019;45(7):848-855.
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- Banerji S, Mehta SB, Millar BJ. Cracked tooth syndrome. Part 2: restorative options. Br Dent J. 2010;208(11):503-14.
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