Dentes com Trinca de Extensão Radicular: Atualização sobre Procedimentos Restauradores para Dentes Tratados Endodonticamente com Fissuras Profundas

Fonte e abrangência: Este artigo é baseado no trabalho de Davis MC, Shariff SS, et al., intitulado Cracked teeth with radicular extension: an update on restorative procedures for endodontically treated deeply cracked teeth, publicado em General Dentistry (2025 Nov-Dec;73(6):14-21; PMID: 41115018). O estudo revisa as evidências recentes que desafiam o paradigma de que dentes com trincas de extensão radicular seriam irrestauráveis e apresenta um protocolo atualizado de manejo conservador. Este conteúdo foi organizado para oferecer ao cirurgião-dentista uma visão abrangente e prática sobre a preservação desses elementos dentários de prognóstico antes considerado desfavorável.


1. Introdução

Por décadas, a detecção de uma trinca que se estendia da coroa em direção à raiz era sinônimo de sentença de extração para o elemento dental. O entendimento tradicional era de que a comunicação entre o ambiente bucal e o periodonto através da fenda, associada à impossibilidade de selamento adequado, inviabilizava qualquer tentativa de tratamento conservador.

No entanto, este paradigma vem sendo progressivamente desafiado por evidências clínicas robustas. O artigo de Davis e Shariff (2025), publicado na General Dentistry em colaboração com a American Association of Endodontists (AAE), representa um marco nessa mudança de perspectiva. Os autores sintetizam os avanços mais recentes e propõem um protocolo estruturado que tem demonstrado taxas de sobrevivência e sucesso comparáveis às de dentes sem trincas, desde que critérios rigorosos de seleção de casos sejam seguidos.

Este artigo tem como objetivo apresentar uma análise detalhada desse protocolo, explorando seus pilares fundamentais: preservação da dentina pericervical, selamento interno da trinca com barreira intrarradicular e restauração imediata com cobertura total. A mensagem central é clara e transformadora: a extração não deve mais ser a solução padrão para dentes profundamente fissurados.


2. Definindo a Trinca de Extensão Radicular

Para que o protocolo seja aplicado corretamente, é essencial compreender a condição alvo. Uma trinca de extensão radicular é definida como uma fratura incompleta que se origina na superfície oclusal da coroa e se propaga apicalmente, ultrapassando o limite da junção cemento-esmalte (JCE) e atingindo a superfície radicular.

Este tipo de trinca é particularmente desafiador porque cria um caminho direto para a infiltração bacteriana, podendo levar a:

  • Necrose pulpar e formação de lesões periapicais.
  • Perda óssea vertical localizada, frequentemente detectada como uma bolsa periodontal estreita e profunda, associada a um único dente.
  • Sensibilidade à percussão e dor à mastigação, especialmente à descompressão.

A dificuldade diagnóstica é inerente a essa condição, uma vez que a trinca radicular frequentemente não é visível em radiografias periapicais convencionais. O padrão-ouro para sua identificação é a combinação de um alto índice de suspeita clínica, o uso de transiluminação e, quando indicado, a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT) para avaliar a extensão da perda óssea e a profundidade da fenda.

A classificação da extensão da trinca é o primeiro e mais crítico passo para a tomada de decisão. Dentes com trincas confinadas ao terço coronário da raiz (próximas à JCE) apresentam um prognóstico mais favorável do que aqueles com trincas que atingem o terço médio ou apical.


3. O Protocolo de Tratamento em Quatro Pilares

Davis e Shariff (2025) descrevem um protocolo multidisciplinar, idealmente executado em conjunto por um endodontista e um dentista restaurador. O protocolo é composto por quatro etapas sequenciais e interdependentes.

3.1 Pilar 1: Terapia Endodôntica Assistida por Microscópio

O tratamento endodôntico é o ponto de partida para qualquer dente trincado que apresente comprometimento pulpar, o que é a regra na maioria dos casos de trincas com extensão radicular. No entanto, a execução desse tratamento difere da rotina tradicional.

Os autores enfatizam a necessidade do uso de microscópio operatório para:

  1. Identificar com precisão a linha de trinca: A magnificação permite visualizar a extensão real da fenda nas paredes do canal, um detalhe crucial para o planejamento.
  2. Guiar o preparo conservador do canal: A preservação da dentina pericervical é um dos pilares do protocolo. O preparo do canal deve ser o mais conservador possível, evitando o desgaste excessivo das paredes dentinárias, que são a última linha de defesa contra a fratura.

3.2 Pilar 2: Colocação de uma Barreira Intrarradicular (Sele Mecânico do Canal)

Após a instrumentação, limpeza e obturação do sistema de canais radiculares com cimentos biocerâmicos (que possuem alta adesividade e capacidade de selamento), a próxima etapa crítica é o estabelecimento de uma barreira intrarradicular.

O objetivo dessa barreira é selar a porção mais coronária do canal e a entrada da trinca, criando um ambiente vedado que impede a microinfiltração bacteriana e a propagação da fenda. O material de eleição para essa função é o Biodentine, um cimento reparador à base de silicato de cálcio com propriedades bioativas.

Por que o Biodentine é tão eficaz? Sua aplicação 2 a 3 mm aquém do orifício do canal permite a liberação de íons cálcio, que interagem com os túbulos dentinários, promovendo a formação de uma camada de dentina reacional e, potencialmente, uma “ponte dentinária” ao longo da trinca, selando-a de forma biológica. Este selamento interno é o que viabiliza a manutenção do dente a longo prazo.

3.3 Pilar 3: Restauração Imediata com Cobertura Total (Onlay ou Coroa)

O terceiro pilar é a restauração definitiva do dente, que deve ser imediatamente realizada após a obturação endodôntica para evitar a contaminação e a fratura do remanescente fragilizado.

A restauração de escolha obrigatoriamente deve oferecer cobertura total das cúspides. Opções incluem:

  • Onlays/Overlays indiretos em cerâmica (ex.: dissilicato de lítio) ou resina composta de alta performance: São a opção mais conservadora, pois exigem menos desgaste da estrutura dental remanescente.
  • Coroa total metalocerâmica ou em zircônia: Indicada quando a perda de estrutura coronária é extensa, e há necessidade de maior retenção e resistência.

A razão para exigir cobertura total é simples: uma restauração convencional (inlay ou resina direta sem cobertura das cúspides) não une os segmentos dentários separados pela trinca. Sob a carga mastigatória, as cúspides irão se movimentar de forma independente, forçando a fenda a se abrir e se propagar. Apenas uma peça que abrace e una o remanescente dentário é capaz de transformar um dente fendido em um monobloco funcional.

3.4 Pilar 4: Controle de Cargas Oclusais e Parafuncionais

O protocolo não se encerra na restauração. O último pilar é tão importante quanto os anteriores: a proteção contra forças excessivas. O sucesso do tratamento depende da minimização dos estresses mastigatórios e parafuncionais (bruxismo, apertamento).

As recomendações incluem:

  • Ajuste oclusal seletivo: Remover contatos prematuros e guias excêntricas que possam gerar forças de tração sobre o dente tratado.
  • Placa miorrelaxante noturna: Pacientes com diagnóstico ou suspeita de bruxismo devem utilizar uma placa rígida para dissipar as forças durante o sono. Esta é uma medida fundamental para a longevidade da restauração e do dente.

4. Preservação da Dentina Pericervical: Um Conceito Central

Um conceito que permeia todo o protocolo de Davis e Shariff (2025) é o da dentina pericervical (PCD). Esta região é definida como a faixa de dentina localizada em uma área de 4 mm acima e 4 mm abaixo da crista óssea alveolar. A PCD é a principal responsável pela resistência do dente às forças de torção e flexão.

Grandes preparos cavitários, acessos endodônticos excessivamente amplos e o alargamento desnecessário dos canais removem essa preciosa dentina pericervical, transformando o dente em uma estrutura incrivelmente frágil, sujeita a fraturas catastróficas.

O protocolo atualizado é, em sua essência, um tratado sobre a preservação da PCD. Isso se traduz em:

  • Acessos endodônticos conservadores (“guided endodontics” ou acessos mínimos).
  • Instrumentação dos canais sem alargamento excessivo.
  • Evitar a remoção de dentina sadia na região cervical durante o preparo para a restauração final.

Ao manter a PCD, o dente tratado mantém sua resiliência, e o risco de fratura, mesmo após a trinca, é significativamente reduzido.


5. Prognóstico e Evidências: Desmistificando o Insucesso

A proposta de tratar dentes com trinca radicular não é uma aposta, mas uma conduta baseada em evidências. Davis e Shariff baseiam-se em estudos longitudinais que demonstram resultados animadores.

Um estudo de coorte prospectivo de 2 a 4 anos (Davis & Shariff, 2019) já havia indicado que as taxas de sucesso e sobrevivência para dentes com trincas radiculares, tratados com um protocolo similar, poderiam ser semelhantes às de dentes tratados endodonticamente sem trincas. O artigo de 2025 atualiza e corrobora esses achados.

Os autores são realistas, apontando que bolsas periodontais isoladas associadas à trinca podem persistir. No entanto, estudos mostram que, mesmo quando não há resolução completa da bolsa, essas lesões tendem a permanecer estáveis e assintomáticas ao longo do tempo, sem evoluir para perda óssea adicional.

Em outras palavras, um pequeno defeito periodontal residual é um preço aceitável a se pagar pela manutenção de um dente natural que, de outra forma, seria extraído.


6. Considerações Clínicas e o Trabalho em Equipe

Davis e Shariff (2025) são enfáticos ao recomendar uma abordagem em equipe para o sucesso deste protocolo. A divisão de responsabilidades é clara:

  1. Endodontista: Responsável por confirmar o diagnóstico (extensão da trinca), realizar o tratamento endodôntico microscópico (minimamente invasivo e completo) e colocar a barreira intrarradicular de Biodentine, selando o canal e a entrada da trinca abaixo do seu nível apical.
  2. Dentista Restaurador: Responsável por confeccionar a restauração definitiva com cobertura total de cúspides (onlay ou coroa) em tempo hábil, garantindo que o conjunto restaurado seja um monobloco coeso.

A comunicação entre os especialistas é fundamental. Uma fala entre o endodontista e o restaurador define o destino do dente: o primeiro informa a extensão e o trajeto exato da trinca e a qualidade do selamento obtido; o segundo, de posse dessas informações, planeja a restauração mais adequada.


7. Conclusão

O artigo de Davis, Shariff e colaboradores (2025) não é apenas uma atualização técnica; é uma mudança de paradigma. A odontologia baseada em evidências contemporânea já não mais justifica a extração sistemática de dentes com trincas de extensão radicular.

O protocolo de quatro pilares — endodontia microscópica preservacionista, selamento interno da fenda com Biodentine, restauração imediata com cobertura total e controle de cargas oclusais — oferece um caminho seguro e previsível para a manutenção desses elementos dentários.

Para o clínico, a mensagem final é clara:

  • Investigue: Ao suspeitar de uma trinca radicular, utilize todos os recursos diagnósticos (transiluminação, CBCT, sonda periodontal).
  • Classifique: Determine a extensão da trinca; casos com extensão radicular não são mais contraindicação absoluta.
  • Trate em equipe: Encaminhe ao endodontista para o selamento da fenda e planeje a restauração com cobertura total.
  • Previna: Controle o bruxismo e as forças oclusais para garantir a longevidade do tratamento.

Preservar o dente natural, mesmo diante de um desafio tão complexo como a trinca radicular, é uma conquista da odontologia minimamente invasiva e baseada em evidências. A era da extração automática desses dentes está, respaldada pela ciência, chegando ao fim.


Referências

  1. Davis MC, Shariff SS, et al. Cracked teeth with radicular extension: an update on restorative procedures for endodontically treated deeply cracked teeth. Gen Dent. 2025 Nov-Dec;73(6):14-21. PMID: 41115018.
  2. Patel S, Teng PH, Liao WC, et al. (including Davis MC). Position statement on longitudinal cracks and fractures of teeth. Int Endod J. 2025 Mar.
  3. Davis MC, Shariff SS. Success and Survival of Endodontically Treated Cracked Teeth with Radicular Extensions: A 2- to 4-year Prospective Cohort. J Endod. 2019 Jul;45(7):848-855.
  4. Efficacy of Biodentine as an Intraorifice Barrier in a Cracked Tooth with Endo-periodontal Lesions: A Case Report. Iran Endod J. 2025 Jul 7;20(1):e27. doi: 10.22037/iej.v20i1.48169.
  5. AAE Online CE: NS-3 Cracked Teeth: Updated Evidence-based Treatment Protocols for Saving More Teeth and Maximizing Success. American Association of Endodontists.
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