Fonte e abrangência: Este artigo é baseado no estudo Repair of teeth with cracks in crowns and roots: An observational clinical study (Malentacca A, et al.), publicado no International Endodontic Journal em outubro de 2021 (Volume 54, Número 10, páginas 1738-1753; DOI: 10.1111/iej.13598). O trabalho investigou retrospectivamente a taxa de sobrevivência de 87 dentes com trincas radiculares tratados com restaurações adesivas de resina composta, com acompanhamento de até 172 meses (média de 66,9 meses). Este conteúdo está organizado para apresentar a classificação dos tipos de trinca, os protocolos de tratamento e os fatores prognósticos identificados.
1. Introdução
O dente trincado — especialmente quando a fenda se estende para a região radicular — sempre foi considerado na prática odontológica um desafio de prognóstico reservado, frequentemente resolvido pela extração. No entanto, a evolução dos sistemas adesivos e das técnicas operatórias sob magnificação tem transformado essa realidade, permitindo que elementos dentários antes condenados possam ser mantidos em função por longos períodos.
Publicado em outubro de 2021 no International Endodontic Journal, o estudo de Malentacca e colaboradores representa um marco nessa mudança de paradigma. Trata-se de um dos maiores e mais longos estudos observacionais já realizados sobre o reparo adesivo de dentes com trincas radiculares, abrangendo um período de 28 anos (1991 a 2019) e incluindo 87 dentes de 87 pacientes, com acompanhamento médio de aproximadamente cinco anos e meio (66,9 meses), chegando a até 172 meses em alguns casos.
O objetivo primário do trabalho foi investigar a taxa de sobrevivência de dentes com trincas radiculares restaurados com materiais compostos e técnica adesiva. Secundariamente, os autores buscaram identificar preditores independentes de extração — ou seja, fatores que, quando presentes, indicam maior risco de perda do dente — e analisar separadamente o comportamento de dois tipos distintos de trinca radicular.
Este artigo apresenta uma análise detalhada do estudo de Malentacca et al. (2021), discutindo sua metodologia, seus achados e suas implicações práticas para o cirurgião‑dentista que se depara com o desafio do dente trincado.
2. Metodologia do estudo
2.1 Desenho e aprovação ética
O estudo foi desenhado como uma investigação observacional retrospectiva, aprovada pelo Comitê de Ética do Sistema Sanitario Nazionale (protocolo n.° 2370CELazio1) e registrada no ClinicalTrials.gov sob o identificador NCT04430205.
2.2 Amostra e critérios de inclusão
Entre 1991 e 2019, foram tratados 87 dentes com trincas radiculares em 87 pacientes (46 homens e 41 mulheres, com idade média de 50,2 anos). Todos os procedimentos foram realizados por um único operador, sob microscopia cirúrgica, garantindo uniformidade técnica.
A amostra incluiu:
- 66 molares (75,9% da amostra)
- 19 pré‑molares (21,8%)
- 2 incisivos (2,3%)
Quanto à localização, 45 trincas foram observadas em dentes posteriores superiores (molares e pré‑molares), 40 em posteriores inferiores e apenas dois casos em dentes anteriores (ambos na maxila).
2.3 Classificação das trincas
Um dos aspectos mais relevantes do estudo é a classificação original proposta pelos autores, que distingue dois tipos de trinca radicular com base em sua profundidade:
a) Proximal radicular cracked teeth (PRCT): fraturas limitadas ao assoalho da câmara pulpar ou ao terço coronário da raiz. Essas trincas, embora alcancem a estrutura radicular, não se estendem além do terço cervical.
b) Deep radicular cracked teeth (DRCT): fraturas que se estendem aos terços médio e apical do canal radicular, podendo chegar até o ápice. São trincas profundas, de prognóstico mais reservado.
Dentre os 87 dentes, 52 foram classificados como DRCT e 35 como PRCT, o que demonstra que mais da metade dos casos apresentava comprometimento radicular extenso.
2.4 Tratamento aplicado
Todos os dentes foram submetidos a um protocolo restaurador adesivo com resina composta. O tratamento incluiu:
- Isolamento absoluto do campo operatório
- Remoção de restaurações insatisfatórias e tecido cariado
- Desinfecção da cavidade
- Tratamento endodôntico, quando indicado
- Aplicação de sistema adesivo
- Restauração com resina composta, em técnica incremental
- Ajuste oclusal e polimento final
Todos os procedimentos foram realizados sob microscopia cirúrgica pelo mesmo operador, o que permitiu identificação precisa das linhas de trinca e execução meticulosa da técnica adesiva.
2.5 Acompanhamento e análise estatística
Os pacientes foram acompanhados por um período médio de 66,9 meses (desvio padrão 44,6 meses), com variação de 1 a 172 meses. Foram avaliados clinicamente e radiograficamente, com especial atenção à perda óssea periodontal e à formação de bolsas periodontais.
A análise estatística incluiu:
- Regressão logística para identificar preditores independentes de extração
- Curvas de sobrevivência de Kaplan‑Meier para analisar separadamente PRCT e DRCT
- Teste de qui‑quadrado (χ²) para comparar proporções
3. Resultados principais
3.1 Sobrevivência global e por tipo de trinca
Os resultados do estudo são animadores e representam um avanço significativo na abordagem conservadora de dentes trincados:
- Mais de 50% dos dentes tratados com o protocolo adesivo estavam funcionais após 5 anos de acompanhamento (46 de 87 dentes; p < 0,05).
- No grupo PRCT (trincas limitadas ao terço coronário), a taxa de sobrevivência em 5 anos foi de 78% .
- No grupo DRCT (trincas que atingem os terços médio e apical), a taxa de sobrevivência em 5 anos foi de 58% .
Os autores também apresentaram um dado ainda mais específico: 85,4% dos PRCT e 61,5% dos DRCT estavam funcionais após 5 anos de acompanhamento.
Esses números demonstram que, mesmo nos casos mais graves (DRCT), mais da metade dos dentes pode ser mantida em função por pelo menos cinco anos, desde que tratada adequadamente.
3.2 Fatores prognósticos
A análise de regressão logística identificou dois fatores extremamente relevantes para a predição do sucesso ou fracasso do tratamento:
Fator protetor (reduz risco de extração):
- Ausência de profundidade de sondagem (probeing depth) — odds ratio (OR) de 0,027 (IC 95%: 0,003‑0,27; p < 0,05). Em outras palavras, a ausência de bolsa periodontal associada à trinca reduz drasticamente o risco de perda do dente.
Fator de risco (aumenta chance de extração):
- Perda óssea adicional (further bone loss) — OR de 10,63 (IC 95%: 2,08‑54,36; p < 0,05). Quando há progressão da perda óssea ao longo do acompanhamento, o risco de extração é mais de dez vezes maior.
Esses achados têm implicações diretas na prática clínica: a presença de bolsa periodontal profunda associada à trinca e a evidência de perda óssea progressiva são sinais de alerta que devem orientar o profissional quanto ao prognóstico desfavorável.
4. Discussão
4.1 Por que esse estudo é importante?
Até a publicação de Malentacca et al. (2021), a literatura sobre o reparo adesivo de dentes com trincas radiculares era escassa e frequentemente limitada a séries de casos pequenas ou a estudos laboratoriais. Este trabalho trouxe três contribuições inéditas:
- Tamanho amostral expressivo: 87 dentes tratados ao longo de 28 anos, o que confere robustez estatística às conclusões.
- Acompanhamento prolongado: mais de cinco anos de follow‑up médio, com alguns casos acompanhados por 14 anos (172 meses).
- Classificação original PRCT vs. DRCT: pela primeira vez, foi proposta uma estratificação baseada na profundidade da trinca radicular, com taxas de sobrevivência diferenciadas para cada grupo.
4.2 Comparação com a literatura
Os autores compararam seus achados com estudos anteriores. Por exemplo, um estudo de 2019 (Clark & Dent) relatou taxas de sobrevivência de 81,6% para dentes com trincas tratados com coroas e 73,5% para restaurações adesivas. Os valores encontrados por Malentacca (78% para PRCT e 58% para DRCT) situam‑se dentro do esperado, considerando a maior gravidade dos casos incluídos (todos com extensão radicular).
Um aspecto que merece destaque é que nenhum dos dentes incluídos no estudo recebeu coroa total como tratamento definitivo. Todos foram tratados exclusivamente com restaurações adesivas diretas em resina composta. Isso significa que os resultados refletem o desempenho da técnica adesiva isolada, sem o reforço adicional de uma coroa protética.
4.3 Limitações do estudo
Os próprios autores reconhecem algumas limitações importantes:
- Caráter retrospectivo: embora bem conduzido, um estudo retrospectivo está sujeito a vieses de seleção e de informação.
- Operador único: todos os procedimentos foram realizados por um mesmo profissional altamente experiente, o que limita a generalização dos resultados para a prática clínica cotidiana.
- Critérios de sucesso limitados: o sucesso foi definido como funcionalidade do dente no acompanhamento, sem necessariamente avaliar a qualidade estética ou a ausência de sintomatologia residual.
- Não utilização de coroas: embora interessante do ponto de vista de avaliar o potencial da técnica adesiva isolada, na prática muitos clínicos optam por associar o reparo adesivo a uma coroa total ou parcial (onlay) como medida de proteção adicional, especialmente nos casos DRCT.
4.4 Implicações clínicas
Apesar das limitações, o estudo oferece orientações práticas valiosas:
- O reparo adesivo é viável mesmo para trincas com extensão radicular (DRCT), com taxas de sucesso superiores a 50% em cinco anos.
- O prognóstico é melhor quando a trinca está confinada à região coronária (PRCT: 78‑85% de sobrevivência em cinco anos).
- A presença e a evolução da perda óssea periodontal são os principais determinantes do fracasso. Isso sugere que trincas que se comunicam com o periodonto (formando bolsas) ou que evoluem com destruição óssea progressiva têm prognóstico muito reservado.
- A magnificação (microscópio ou lupa) é fundamental para identificar corretamente a extensão da trinca e realizar o reparo adesivo de maneira precisa.
5. Considerações finais
O estudo de Malentacca e colaboradores (2021) representa um avanço significativo na abordagem conservadora dos dentes com trincas radiculares. Seus achados demonstram que, com técnica adesiva adequada, realizada sob magnificação, é possível manter em função mais da metade dos dentes com trincas que atingem a raiz — e cerca de quatro em cada cinco quando a trinca está limitada à porção coronária.
Os principais ensinamentos para o clínico são:
- Classifique a trinca: antes de decidir pelo tratamento ou pela extração, determine se a trinca é PRCT (restrita ao terço coronário) ou DRCT (estendendo‑se aos terços médio/apical). Quanto mais profunda, pior o prognóstico.
- Avalie o periodonto: a presença de bolsa periodontal profunda associada à trinca é um forte preditor de insucesso. Investigue com sonda periodontal e, se necessário, com tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT).
- Restaurações adesivas são uma opção real para esses casos, mas exigem domínio técnico e condições clínicas favoráveis.
- O acompanhamento deve ser prolongado: os fracassos podem ocorrer tardiamente, como mostram os casos de até 14 anos de seguimento.
Em suma, o estudo de Malentacca et al. (2021) oferece ao cirurgião‑dentista evidências robustas para, cada vez mais, evitar a extração e investir no reparo adesivo de dentes com trincas — sempre com uma avaliação criteriosa dos fatores prognósticos e com o devido acompanhamento longitudinal.
Referências
- Malentacca A, Zaccheo F, Scialanca M, Fordellone F, Rupe C, Lajolo C. Repair of teeth with cracks in crowns and roots: An observational clinical study. Int Endod J. 2021;54(10):1738‑1753. DOI: 10.1111/iej.13598. PMID: 34291470.
- Malentacca A, et al. (2021) — Abstract. International Endodontic Journal, Volume 54, Issue 10, pp. 1738‑1753.
- Malentacca A, et al. (2021) — ClinicalTrials.gov identifier: NCT04430205.
- PubMed — Repair of teeth with cracks in crowns and roots. PMID: 34291470.
- Semantic Scholar — Repair of teeth with cracks in crowns and roots. Corpus ID: 236175349.
- Wiley Online Library — International Endodontic Journal, Volume 54, Issue 10, pp. 1738‑1753.
- Read by QxMD — Repair of teeth with cracks in crowns and roots: An observational clinical study.